Enem: Entenda como funciona o Exame Nacional do Ensino Médio

Os conteúdos do Observatório da Educação sobre o Enem irão te ajudar a entender como funciona o Exame Nacional do Ensino Médio e qual sua real importância para a educação no Brasil.

Introdução

Criado em 1998, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) nasceu para avaliar a última etapa da Educação Básica e foi instrumento relevante de indução de transformações do currículo. Atualmente, configura-se como a principal porta de acesso ao ensino superior e busca maior aproximação com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e o Novo Ensino Médio.

Ao longo dessa trajetória, o exame foi ampliando tanto sua relevância, hoje articulado a programas como Programa Universidade para Todos (Prouni), Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e Lei de Cotas para o Ensino Superior (12.711/2012), como também se tornou maior em termos de inscritos e de questões, mudando sua organização e metodologia de avaliação.

Buscando esclarecer todas as mudanças e trazer detalhes sobre a importância do Enem para a educação brasileira, produzimos este especial, que une diversos conteúdos disponíveis no Observatório de Educação e irão te ajudar a entender tudo sobre o exame.

Para que você possa conferir, de forma mais profunda, alguns conteúdos sobre o tema, distribuímos diversos links ao longo do texto, que direcionam para materiais selecionados, disponibilizados e organizados aqui dentro do Observatório de Educação.

Atual objetivo do Enem e a trajetória da avaliação

Desde 2017, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tem como objetivo primordial “aferir se seus participantes demonstram, ao final do ensino médio, individualmente, domínio dos princípios científicos e tecnológicos que presidem a produção moderna e se detém conhecimento das formas contemporâneas de linguagem".

Seus resultados devem servir como parâmetros para: a autoavaliação do participante; a criação de referência nacional para o aperfeiçoamento dos currículos do ensino médio; a utilização como mecanismo único, alternativo ou complementar para acesso à educação superior, especialmente a ofertada pelas instituições federais de educação superior; e o acesso a programas governamentais de financiamento ou apoio ao estudante da educação superior.

Para chegar até aqui, o Enem percorreu trajetória de mais de 20 anos. Teve seu início na gestão do ex-ministro da Educação Paulo Renato Souza (1995-2002), no governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC). Foi regulamentado pela Portaria n. 438, de 28 de maio de 1998, do Ministério da Educação (MEC), integrante de um conjunto de reformas que o governo FHC implementou na Educação pública depois da promulgação da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) e das críticas que o próprio ex-ministro, falecido em 2011, tinha ao vestibular tradicional. Como instrumento de acesso ao ensino superior, o Enem passou a figurar entre as avaliações em larga escala, junto com o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que havia sido criado no início da década.

Na websérie de entrevistas com ex-ministros da Educação, da seção Luz, Câmera, Gestão, do Observatório de Educação, Maria Helena Guimarães, que foi secretária de Educação Básica durante a gestão de Paulo Renato, lembra detalhes de como foi o processo de criação, com a constituição de uma comissão que trabalhou durante um ano analisando as condições de oferta do Ensino Médio e a referência ao SAT (Scholastic Aptitude Test, exame realizado nos Estados Unidos). Confira mais detalhes no vídeo abaixo, de Maria Helena Guimarães.

Seu planejamento e operacionalização desde o início estão a cargo do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa Educacionais (Inep), órgão ligado ao MEC. Semelhante ao que é estabelecido hoje, quando criado, o Enem focava em entender o perfil do estudante que estava saindo da escolaridade básica, buscando dar uma referência ao jovem, ao fim dos seus 11 anos de estudo, além de subsidiar o MEC na elaboração de políticas públicas e pesquisas educacionais.

Ano a ano, o exame foi ganhando número de inscritos e relevância como potencial indutor do currículo do Ensino Médio, diante da ausência de uma base nacional.

O primeiro crescimento considerável de inscrições ocorreu em 2001, com a medida de isenção de taxas para estudantes das escolas públicas. O segundo grande salto ocorreu em 2005, já no governo Luiz Inácio Lula da Silva, quando passou a ser utilizado como parâmetro para a concessão de bolsas do ProUni.

Número de Inscrições no ENEM por Ano

Ano Nº de Inscritos
2020 5.783.357
2019 5.095.308
2018 5.513.662
2017 6.731.186
2016 8.627.371
2015 7.792.025
2014 8.722.290
2013 7.173.574
2012 5.791.332
2011 5.380.857
2010 4.611.411
2009 4.147.527
2008 4.004.715
2007 3.568.592
2006 3.731.975
2005 2.998.083
2004 1.547.094
2003 1.876.387
2002 1.818.665
2001 1.627.949
2000 390.574
1999 346.819
1998 157.076

Tal processo se consolidou em 2009, já no segundo ano do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Sob a gestão do ex-ministro Fernando Haddad, a aferição da nota do Enem passou por uma mudança metodológica, com consequente reorganização de seus conteúdos e adotando a Teoria de Resposta ao Item (TRI) como técnica para permitir a comparabilidade histórica dos resultados. Os resultados do Enem passaram então a valer como critério de ingresso no ensino superior, através do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), posteriormente articulando-se também a Lei de Cotas de 2012.

Neste contexto, a finalidade fundamental do Enem não foi alterada. Continuou, assim, servindo para avaliar o concluinte do ensino médio. Mas passou a avaliar também os estudantes ingressantes nos cursos de graduação e certificar alunos que ainda não haviam concluído o ensino.

Por meio do Sisu e do Prouni, a nota do Enem passou a valer como a principal forma de ingresso no Ensino Superior e, atualmente, ele é considerado a principal porta de entrada para as universidades públicas e privadas no Brasil. Além disso, o exame também possibilita aos estudantes, dependendo de seus resultados, a garantia de bolsas de estudos e financiamento estudantil.

Segundo afirma o pesquisador Rodrigo Travitzki em sua tese “Enem: limites e possibilidades do Exame Nacional do Ensino Médio enquanto indicador de qualidade escolar”, dentre todos os objetivos do Enem, utilizá-lo para ingressar em empresas ou Instituições de Ensino Superior foi o mais aceito no sistema educacional e na sociedade. “Em 2009, de acordo com os microdados, 80% dos participantes fizeram o exame com o objetivo de entrar na faculdade, 12% desejavam apenas uma autoavaliação (...) Ao longo dos anos, mais objetivos foram sendo acrescentados ao exame”, destacou Travitzki.

Em 2017, no bojo de novas reformas educacionais, o MEC, sob a gestão de Mendonça Filho, optou por fazer novas alterações no objetivo do exame, diante do avanço da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e do Novo Ensino Médio. Além disso, o exame deixou de ser utilizado para certificação, função que passa a ser do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja).

O que os resultados do Enem revelam?

Marco avaliativo final de um processo de escolarização ainda notadamente discriminatório, as notas do Enem expressam o funil excludente que marca a educação brasileira.

Como já mostramos no conteúdo especial sobre desigualdade racial, por exemplo, apesar de nos últimos anos ser observada queda do abandono no Ensino Médio tanto entre estudantes brancos quanto negros, a distância nos últimos anos pouco se alterou (permanece estável entre 2,5 e 3 pontos percentuais). Além disso, o último dado, de 2018, mostra que a queda segue entre os estudantes brancos, ao contrário do índice entre os estudantes negros (subiu de 7,7% em 2017 para 7,8% em 2018), com possibilidade de agravamento diante da pandemia do Coronavírus, conforme conteúdo da seção Em Debate, que também abordou o assunto.

Além da evasão, diversos outros índices reafirmam essa desigualdade estrutural, expressão do racismo presente na sociedade brasileira desde sua constituição até a atualidade. Se observados os dados de 2018, bem como sua trajetória histórica, em todas as áreas de conhecimento, o desempenho dos estudantes brancos é maior do que dos estudantes negros, chegando a 65,2 pontos de diferença na Redação.

Desempenho de estudantes brancos e negros no Enem

Se observamos as diferenças entre estudantes mulheres e homens também é possível refletir sobre desigualdades de gênero e o sexismo na educação. Apesar das edições do Enem, contarem, desde 2011, com taxa de participação repetidamente maior entre as estudantes do sexo feminino, é possível também verificar a persistência de diferença de desempenho entre elas e eles.

Desempenho de estudantes do sexo femino e masculino no Enem

A produção acadêmica que explora esses dados é vasta. Por meio de diferentes cruzamentos e análises qualitativas, diversos artigos, teses e dissertações reafirmam que a inequidade das condições objetivas, o processo educativo atravessado pelo racismo estrutural e sexismo são fatores determinantes desses resultados.

Em entrevista ao Observatório da Educação, o Professor Marcelo Paixão, da University of Texas, discorreu sobre o debate sociológico a respeito das desigualdades raciais no Brasil a partir da comparação dos dados de aprendizagem, evasão e conclusão entre jovens estudantes negros e brancos.

A filósofa Sueli Carneiro e a gestora Macaé Evaristo debateram em entrevista ao Instituto Unibanco os desafios enfrentados pela Juventude Negra no Ensino Médio, os quais possuem relação direta com o desempenho desses estudantes no ENEM. Através de uma recuperação histórica da atuação do Movimento Negro, as especialistas demonstram como a educação é central para o enfrentamento às desigualdades:

Sobre o impacto das diferenças de gênero no percurso escolar, na aprendizagem e no rendimento dos estudantes no ENEM, vale conferir nosso Conteúdo Multimídia sobre a experiência das pessoas trans na educação, notadamente no Ensino Médio e no acesso ao Ensino Superior. Estima-se, de acordo com dados da Comissão da Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que no Brasil 82% das pessoas trans e travestis tenham abandonado os estudos ainda na educação básica. Este e outros indicadores apontam que ainda há muito a ser construído para garantir equidade de gênero no acesso ao Ensino Superior.

Além de raça e gênero, outros marcadores sociais da diferença são determinantes para o acesso e a garantia do direito à aprendizagem. O artigo “O desempenho de estudantes no Enem 2010 em diferentes regiões Brasileiras”, dos pesquisadores Cristiano Rodrigues de Mattos e Esdras Viggiano de Souza, por exemplo, aponta para desigualdades regionais, identificando três grupos de desempenho: superior (Sul e Sudeste); médio (Centro-Oeste); e inferior (Norte e Nordeste).

Já Erik Figueirêdo, Lauro Nogueiray e Fernanda Leite Santanaz, no artigo “Igualdade de oportunidades: analisando o papel das circunstâncias no desempenho do Enem” avaliam como as circunstâncias sociais influenciam o desempenho educacional dos alunos que prestam o Enem. “Os resultados indicaram que variáveis como: renda familiar, escolaridade dos pais, tipo de escola, etc., são fatores essenciais na determinação da desigualdade de oportunidades. Pelos resultados (em termos de probabilidade) parecem inviável aqueles penalizados pelas circunstâncias obterem melhores resultados”, concluem os autores.

Diversas outras produções podem ser encontradas no Cedoc do Observatório de Educação.

Enem e pandemia: intensificação das desigualdades

Em julho de 2020, o MEC e o Inep divulgaram que as provas impressas do Enem 2020 impresso serão realizadas nos dias 17 e 24 de janeiro de 2021, enquanto a versão digital está marcada para 31 de janeiro e 7 de fevereiro. Os resultados serão divulgados a partir de 29 de março.

Principal porta de entrada para as universidades públicas e privadas no Brasil, o Enem foi adiado em resposta à pressão de diversos setores da sociedade, entre eles o Congresso Nacional, a Defensoria Pública, o Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Educação (Consed), a Associação Brasileira de Avaliação Educacional (Abave) e movimentos da sociedade civil, como o Todos pela Educação e a Campanha Nacional pelo Direito à Educação.

O principal argumento dos segmentos que defenderam o adiamento foi tentar reduzir a desigualdade educacional, exacerbada no contexto de isolamento social. As diferentes realidades socioeconômicas dos candidatos da avaliação impõem desafios especialmente quanto às possibilidades de acesso à internet e às condições de estudo em casa.

Recente publicação do Jornal Nexo demonstrou como as desigualdades raciais e de gênero foram acentuadas pela pandemia. Ao analisar os índices de infecção e de mortalidade entre pessoas negras e brancas, através de dados disponibilizados pelo Ministério da Saúde, constatou-se que enquanto as pessoas negras representam cerca de 23,1% das pessoas internadas com Síndrome Respiratória Aguda Grave, elas somam mais de 30% dos óbitos por Covid-19. Além disso, dados da PNAD Covid-19, demonstram como a crise econômica afetou de maneira desproporcional pessoas negras e mulheres, sobretudo no que refere à diminuição da carga horária de trabalho e da renda. O impacto desproporcional da pandemia na vida de pessoas negras e mulheres tem consequências diretas na garantia de condições socioeconômicas mínimas para que essas juventudes obtenham resultados satisfatórios no próximo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Segundo levantamento do jornal Folha de S.Paulo, realizado com base no perfil de participantes do Enem 2018, 34% dos estudantes da rede pública que prestaram a prova naquele ano não tinham acesso à internet. Entre os alunos da rede privada, a parcela desprovida deste acesso era de apenas 3,7%. O estudo usou os dados mais recentes disponíveis e constatou, ainda, que a desigualdade aumenta quando se observam recortes de renda e raça.

O último informativo “Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil”, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), também evidencia a íntima relação entre pobreza e raça e o direito à educação. Lançado no fim de 2019, com base em dados do ano anterior, o documento apontou uma taxa de conclusão do ensino médio para a população branca de 76,8% em 2018, enquanto a da população preta ou parda, embora venha aumentando, foi de 61,8%.

Quando a análise enfocou as pessoas de 18 a 24 anos de idade com menos de 11 anos de estudo e que não frequentavam a escola, revelou uma situação emblemática: os jovens pretos ou pardos no quinto da população de menor renda domiciliar per capita encontravam-se na pior condição, com 42,6% fora da escola, ante a 37,4% dos brancos.

Pesquisa do IBGE sobre índices de pessoas fora da escola

O Enem é instrumento de democratização do acesso ao ensino superior?

A adoção da nota do Enem como parâmetro de acesso ao ensino superior, atrelada ao Sisu, ao ProUni e a ações afirmativas, modificou de certa forma o cenário das graduações públicas e privadas brasileiras.

Segundo a Síntese de Indicadores Sociais (SIS), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2018, 25,2% dos jovens brasileiros (entre 18 e 24 anos) estavam cursando ou já haviam concluído o ensino superior. Porém, se observado o dado a partir do recorte racial, a taxa de matrículas de jovens brancos era 36,1% e de jovens negros (pretos ou pardos), metade: 18,3%.

Os últimos três anos mostram que a porcentagem de jovens estudando na universidade avançou nos dois grupos, mas a desigualdade aumentou – de 16,2 para 17,8 pontos percentuais.

Os dados mostram certa estagnação, após um período de crescimento. O percentual de negros no ensino superior apresentou grande crescimento entre 2005 e 2015. Em 2005, um ano após a implementação de ações afirmativas, como as cotas, apenas 5,5% dos jovens pretos ou pardos e em idade universitária frequentavam uma graduação. Em 2015, 12,8% dos negros entre 18 e 24 anos chegaram ao nível superior, segundo IBGE.

Nesse cenário, vários estudos, que têm buscado compreender melhor esses dados, podem ser encontrados no Cedoc.

Como destacaram Melina Kerber Klitzke e Ione Ribeiro Valle, no artigo “Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) - Há democratização do acesso ao Ensino Superior?”:

"(...) O aumento progressivo do número de inscritos no Enem mostra que [...] ele reacendeu a chama da esperança de acesso ao ensino superior para frações da população brasileira que permaneceu historicamente à margem desse nível de formação. O reconhecimento das desigualdades entre os indivíduos não impede o aumento de participantes a cada edição do exame. Assim, mesmo que o Enem não democratize efetivamente as chances de ingressar numa instituição universitária pública, o sonho foi alimentado e está se transformando em ideal a ser perseguido por muitos estudantes brasileiros”, concluem as autoras.

Já Vânia Lourenço, em “Limites e possibilidades do ENEM no processo de democratização do acesso à educação superior brasileira”, analisa se o Enem tem contribuído para a democratização do acesso à educação superior e, ainda, de que forma as políticas implementadas pela Universidade de Brasília (UnB) têm favorecido a permanência dos alunos atendidos pela instituição. Os resultados apontam que a adoção do Enem tem favorecido a migração de alunos de outras Unidades da Federação para os cursos de alto prestígio social, oriundos de escolas privadas e em sua maioria com renda familiar entre três e dez salários mínimos.

Faça pesquisas ainda mais específicas, a partir de seus interesses, pela busca avançada do Cedoc.

Papel da gestão para combater as desigualdades do Enem

A partir de 2014, por meio da Portaria nº 533, do Inep, foi possível ter acesso aos resultados do Enem por escola. A divulgação dos dados foi crucial, pois permitiu observar que muitas das unidades de ensino que apresentavam os melhores resultados estavam localizadas em regiões vulneráveis, com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). O ex-ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro destaca esse ponto, em sua participação na websérie “Entrevistas com Ex-ministros”, destacando que o interior do Nordeste, por exemplo, concentra grande parte dos melhores resultados. Confira, abaixo, o vídeo na íntegra.

Para o alcance desses resultados, muitos exemplos reforçam a importância da gestão. Por exemplo, a gestora Maria de Belém Miranda de Souza, da EEEFM Luiz Nunes Direito, de Ananindeua (PA), descreve prática que adotou para melhorar o desempenho de seus alunos em avaliações, como Enem e vestibulares.

Já a gestora Maria do Socorro Lima de Freitas, da EEFM Professor Aloysio Barros Leal, de Fortaleza, Ceará, detalha ações que ocorreram em sua escola para elevar a motivação dos estudantes. Ela usou o seu próprio exemplo de vida para conseguir mostrar para os estudantes que, apesar da situação de vulnerabilidade, eles eram capazes e podiam ter a expectativa de ingressar no ensino superior.

Quais são as principais críticas feitas ao Enem?

Grande parte das críticas ao Exame referem-se à proposta de facilitar o acesso dos estudantes ao Ensino Superior por meio do Sisu. Vânia Maria Lourenço concluiu, em sua dissertação “Limites e possibilidades do ENEM no processo de democratização do acesso à educação superior brasileira“ o seguinte:

“Mesmo com a oportunidade de concorrerem a uma vaga em instituições distantes de suas regiões de moradia, os candidatos se deparam com o histórico quadro presente na educação superior brasileira: maior número de candidatos do que vagas, e consequente maior concorrência, que tornou-se ainda mais agressiva com a institucionalização da plataforma SiSu, criando um quadro de competição e ranqueamento entre as universidades, onde os alunos com maior capital cultural vão para as melhores e mais concorridas universidades, restando para os demais candidatos, as instituições menos reconhecidas e mais distantes dos grandes centros”, afirmou Vânia.

Além de Vânia Maria Lourenço, o autor Leonardo Cordeiro também trouxe, em seu artigo “Sobre a inadequação da metodologia de cálculo das notas do Sisu” uma crítica ao processo entre o Sisu e o Enem. “O método utilizado pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu/MEC) gera distorções determinantes no processo de seleção. Esses desvios fazem com que até 76% dos candidatos que seriam aprovados, caso não houvesse essa mistura equivocada de notas, não mais o fossem”, relata Cordeiro.

Apesar de o Enem precisar de aprimoramentos em certos pontos, é necessário considerar que ele é visto por muitos, hoje, como mecanismo essencial do Ensino Médio, além de ser considerado a prova mais esperada do ano para milhões de estudantes em todas as regiões do Brasil.

Concluímos essa discussão com o primeiro episódio da série Nota 10 Enem, realizada pelo Canal Futura, que traz a história de dois universitários que ingressaram no ensino superior por meio do Enem. Assista abaixo.

Sobre a prova especificamente, por que o número de acertos não significa a nota do estudante no Enem?

Para responder a pergunta acima, é necessário entender como funciona o método de correção das provas utilizado pelo Enem. Este método é conhecido como Teoria da Resposta ao Item (TRI) e ele não avalia somente a quantidade de respostas corretas mas, também, o grau de dificuldade de cada questão e a coerência das respostas fornecidas pelos estudantes em cada uma das diferentes áreas de conhecimento.

Muitas pessoas chamam o método TRI de “sistema de correção contra chutes”, afinal, a coerência nos erros e acertos tem impacto significativo na nota final, fazendo com que o chute não seja uma boa opção. Em outras palavras, se um estudante acertar 20 questões classificadas como difíceis e somente 4 questões classificadas como fáceis, ele será penalizado em sua nota final, porque o seu resultado é considerado, pela TRI, como um resultado incoerente.

Entender todos os detalhes, peculiaridades da TRI e como calcular a nota do Enem pode elevar as chances de um estudante obter um resultado satisfatório na realização do exame, afinal, ele conhecerá todos os erros que não devem ser cometidos.

Como funciona a prova do Enem? Quem pode participar?

Após a sua reformulação no ano de 2009, a prova do Enem segue um padrão de 180 questões de múltipla escolha e uma única redação. Todas as perguntas da prova são divididas em quatro áreas de conhecimento, com 45 questões em cada.

Apesar de muito complexo e estruturado por diversas pessoas, existem algumas críticas referentes ao formato da divisão das questões do Enem. O artigo “Exame Nacional do Ensino Médio (Enem): uma análise crítica” produzido por Marcia Cristina Bernardes Barbosa, Roberto da Silva e Fernando Lang da Silveira, destaca um contraponto sobre o formato da prova. Para os pesquisadores, a física, a biologia e a química inexistem como disciplinas dentro do Enem.

Desde que cumpra todas as regras previstas no Edital do Enem, qualquer pessoa pode realizar a prova. Esta garantia legal que universaliza o acesso ao Exame não garante, contudo, que todos tenham de fato condições equânimes para inscrição e realização do mesmo. Ao comparar os resultados do Enem entre estudantes brancos e negros, percebe-se que, a despeito de uma evolução geral na média das notas, a diferença entre os resultados de estudantes negros e brancos permanece. Em 2018 enquanto a média entre estudantes brancos foi de 545,5, a média entre estudantes negros foi de 511,9.

Resultados de estudantes brancos e negros no Enem

De maneira análoga a diferença entre o desempenho de meninas e meninos se mantém ao longo da série histórica. Apesar das estudantes apresentarem um índice de inscrição superior ao dos rapazes, as notas das meninas mantiveram-se levemente abaixo:

Resultados de estudantes do sexo masculino e feminino no Enem

Dificuldades socioeconômicas, muitas vezes acentuadas ou mesmo promovidas pelas desigualdades de raça e gênero, têm grande influência nos resultados, uma vez que traduzem as condições materiais para o preparo e realização do Exame. Durante a pandemia da Covid-19, em muitos casos essas condições se agravaram, sobretudo para meninas (sobrecarregadas com o trabalho doméstico), moradores de áreas rurais (com dificuldades de acesso à internet) e para jovens que conciliam os estudos com o trabalho. Sobre esse tema, o Instituto Unibanco promoveu recente webinário com a participação de jovens de várias regiões do país que compartilharam alguns desafios de estudar e se preparar para o Enem durante a pandemia:

Por fim, é comum surgirem algumas dúvidas mais operacionais em relação à realização do Exame como, por exemplo, o valor da inscrição, isenção, datas e horários. Para acessar todas as informações oficiais, você pode clicar aqui.

Enem é uma prova mais difícil que vestibular tradicional? Qual a diferença do conteúdo cobrado?

Não existe uma resposta exata para essa pergunta, afinal, o nível de dificuldade se articula com o acesso a condições adequadas para o preparo e realização do exame. Apesar de possuírem muitos pontos em comum e o Enem ser visto como um vestibular, para estudantes e especialistas os exames possuem diferenças consideráveis.

O vestibular é utilizado somente para ingressar no ensino superior, tanto em Universidades públicas, quanto em Universidades privadas. A grande diferença do Enem, em relação ao vestibular, é referente às possibilidades que a nota oferece, afinal, com a nota do Enem, o estudante consegue se inscrever em programas como o Sisu, o Programa Universidade para Todos (ProUni) e o Financiamento Estudantil (FIES).

Outra diferença marcante entre o vestibular e o Enem é em relação ao modelo das provas. O vestibular pode variar, e muito, dependendo da Instituição que está aplicando a prova. Já o Enem precisa seguir o padrão imposto pelo Inep e todas as regras à risca. Aqui entra também a diferença entre o conteúdo cobrado. Alguns vestibulares podem não conter questões referentes a todas as disciplinas em suas provas, diferentemente do Enem.

Buscando possibilitar uma visão geral precisa de alguns aspectos da prova do Enem, o pesquisador Rodrigo Travitzki Teixeira de Oliveira analisou seis edições do exame, utilizando metodologias provenientes da Teoria Clássica dos Testes (imagem A) e da Teoria da Resposta ao Item (imagem B).

Análise das provas do Enem

A análise realizada por Rodrigo Travitzki Teixeira de Oliveira mostra que o nível de dificuldade das provas possui uma grande variação ao longo dos anos.

O ex-Ministro da Educação, Fernando Haddad, explicou com mais detalhes a metodologia de Resposta ao Item. Confira o vídeo na íntegra abaixo.

E sobre a redação do Enem, o que faz o estudante zerar?

A redação é uma das partes principais da prova do Enem e a sua nota pode variar entre 0 e 1.000 pontos. Esta nota é dividida em 5 partes, que valem 200 pontos cada, variando de acordo com as competências avaliadas na prova.

Existem algumas atitudes que aumentam, e muito, a chance de o estudante zerar a sua redação no Enem. Na matéria “Erros que derrubam a nota da redação”, produzida pelo portal O Globo, os professores Raphael Torres e Thaiane Espíndola destacaram alguns pontos de atenção durante a produção de texto no exame, que podem resultar em notas baixas.

O desrespeito aos direitos humanos é considerado um desses tópicos e possibilita uma profunda discussão a respeito dos temas sugeridos pelas redações do Enem ao longo da história. Foi o que fez a autora Carla Andrea Pereira de Rezende em sua dissertação “Uma análise discursiva sobre os direitos humanos nas redações do Enem”, onde analisou os discursos das redações de candidatos que participaram do Enem 2012.

Importa ainda destacar que o acesso a internet e demais ferramentas digitais é uma variável que contribui sensivelmente com os resultados dos estudantes na redação. Recente análise dos microdados do Enem revelou a importância do acesso as plataformas digitais e à internet para qualificar o preparo e possibilitar resultados melhores na hora da redação. A desigualdade no acesso às ferramentas tecnológicas se acentuou ainda mais durante a pandemia da Covid-19, chamando ainda mais atenção para os dados de 2019, que demonstram como a nota média na prova de redação de quem informou ter internet e computador em casa é 86,6 pontos maior do que a de quem declarou não ter essas ferramentas.

Convidamos você a conhecer mais sobre o Enem em uma distribuição estatística das notas, realizada por Gislaine Maria Bortolotti. Clique aqui para conferir.

Recapitulando

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é considerado a principal porta de entrada para as universidades públicas e privadas no Brasil. O exame também possibilita aos estudantes, dependendo de seus resultados, a garantia de bolsas de estudo, como o ProUni, de financiamento estudantil e de inscrição no Sistema de Seleção Unificada (Sisu).

Devido à pandemia de Covid-19, o Enem precisou ser adiado pelo MEC. Portanto, a realização da prova presencial acontecerá nos dias 17 e 24 de janeiro de 2021 e, para os inscritos que optaram por realizar suas provas em formato digital, ela acontecerá nos dias 31 de janeiro e 7 de fevereiro de 2021.

Para calcular a sua nota do Enem, primeiro você precisa entender como funciona o método de correção das provas, chamado de Teoria da Resposta ao Item (TRI). Esse método não avalia somente a quantidade de respostas corretas, mas também o grau de dificuldade de cada questão e a coerência das respostas fornecidas pelos estudantes em cada uma das diferentes áreas de conhecimento.

A despeito do acesso à educação apresentar índices que se aproximam da universalidade, o direito à aprendizagem ainda esbarra nas desigualdades que estruturam a nossa sociedade. Dessa forma, a diferença na média dos resultados de estudantes negros e brancos, homens e mulheres, pessoas cis e trans, revela a necessidade de aprimorar as políticas públicas educacionais de modo a promover a equidade na Educação Básica.

Enquanto política pública educacional, o Enem cumpre o papel de cada vez mais fomentar e possibilitar a inserção de pessoas negras, de baixa renda e de mulheres no Ensino Superior. A despeito das críticas, necessárias a contínua melhoria e ampliação dessa política pública, o Exame Nacional do Ensino Médio possibilitou, por exemplo, o crescimento expressivo do percentual de pessoas negras no ensino superior: de 5,5% em 2005 para 12,8% em 2015 (IBGE).

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