Afinal, o que é Ensino híbrido?
Conceitos, debates e possibilidades
para a educação formal

Um compilado especial de conteúdos sobre o ensino híbrido para auxiliar a sua implantação durante a retomada gradual das atividades presenciais

Introdução

A necessidade sanitária de suspender as atividades presenciais nas escolas durante a pandemia de Coronavírus provocou uma série de mudanças emergenciais em todas as redes de ensino do Brasil, de modo a construir modelos de ensino remoto. Enfrentando desafios que vão desde as desigualdades quanto ao acesso à internet até a formação de professores, os gestores agora caminham para outro nível desse debate: como implementar o ensino híbrido durante a retomada gradual das atividades presenciais?

Conforme a resolução disponível neste link, aprovada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) em outubro de 2020, as escolas têm autonomia para manter o ensino remoto até dezembro de 2021, ajustando metodologias e calendários. Assim, as instituições podem manter as aulas exclusivamente on-line, se a pandemia exigir, ou iniciar uma retomada das atividades presenciais de forma gradual, adotando o modelo de ensino híbrido por meio de metodologias que preveem a combinação de aula presencial com aula remota. A medida vale para instituições públicas e privadas de todos os níveis da educação.

Considerando esse contexto e a necessidade de elucidar conceitos, debates, possibilidades e desafios do ensino híbrido, compilamos uma série de informações, dados e análises aqui do Observatório de Educação – Ensino Médio e Gestão para você compreender um pouco mais sobre esse modelo e conhecer iniciativas e orientações para sua implementação frente ao desafio da educação na pandemia que estamos enfrentando.

Para ter acesso a mais conteúdos sobre o tema, distribuímos vários links ao longo do texto, direcionando para diversos materiais selecionados, disponibilizados e organizados aqui no Observatório de Educação. Utilize-os para explorar conteúdos mais aprofundados sobre questões específicas relacionadas ao ensino híbrido diretamente na nossa plataforma.

Ensino híbrido: conceitos e diferenças de outros modelos

O ensino híbrido, ou ensino combinado, é um modelo de educação que propõe que a aprendizagem deve acontecer tanto no espaço físico da sala de aula quanto em plataformas digitais de ensino. Conforme os autores norte-americanos Charles Graham e Curtis J. Bonk definem no livro The Handbook of Blended Learning: Global Perspectives, Local Designs, essa proposta é uma combinação das aulas presenciais face a face com a instrução assistida por computador.

Os autores Michael Horn e Heather Staker, por sua vez, conceituam o ensino híbrido como um programa de educação formal, no qual o aluno aprende em parte por meio on-line – com algum controle do aluno sobre o tempo, lugar, percurso e/ou ritmo da aprendizagem – e em parte em um espaço físico longe de casa.

Conforme explica o pesquisador José Moran, no livro “Ensino híbrido: personalização e tecnologia da educação", a educação em si já é híbrida por natureza, uma vez que sempre está combinando modelos curriculares, metodologias e diversas formas de aprendizado, misturadas. Na perspectiva tecnológica, para o autor, ensino híbrido é a combinação das atividades em sala de aula com as digitais, combinando em um mesmo modelo momentos de aprendizagem presenciais e virtuais.

Naturalmente, o ensino híbrido guarda inúmeras diferenças do ensino completamente presencial, uma vez que necessariamente formaliza parte da carga horária estudantil em um espaço distante da escola, ainda que mesmo no formato predominantemente presencial os professores e gestores utilizam tecnologias diversas em suas rotinas. Conforme descrevem Julia Freeland Fisher, Katrina Bushko e Jenny White (tradução livre): no relatório do Christensen Institute disponível neste link:

“Alguns educadores e gestores usam plataformas e painéis habilitados para organizar os trabalhos e os dados de seus alunos. Outros usam ferramentas online para agilizar processos de avaliação. Alguns utilizam a tecnologia para abrir oportunidades de pesquisa na Internet para seus alunos. (...) Outros fazem uso dela não apenas para fornecer conteúdo, mas também para personalizar a experiência de aprendizagem, proporcionando experiências diferenciadas para alunos individuais em uma única aula.”

Porém, cabe ressaltar ainda que o ensino híbrido também não é a mesma coisa que o ensino remoto emergencial, instaurado nas escolas brasileiras neste ano em resposta à pandemia, apresentando diferenças desse formato e também do de Educação a Distância (EAD).

De acordo com o pesquisador Charles Hodges, conforme abordado no conteúdo multimídia disponível neste link, enquanto o primeiro conceito envolve o uso de soluções remotas para instrução ou educação que, não fosse a crise do Coronavírus, seria ministrada presencialmente, o segundo resulta de design e planejamento instrucional cuidadosos, usando um modelo sistemático de design e desenvolvimento para elaborar um formato de aprendizagem com mínimo ou nenhum contato face a face.

Nessa perspectiva, o ensino híbrido é na verdade uma combinação de elementos de cada um desses modelos. Conforme descrevem os pesquisadores Alan César Belo Angeluci e Marcello Cacavallo, no artigo disponível na plataforma CEDOC através deste link,

“De uma maneira geral, o ensino híbrido trata da convergência dos modelos educacionais: o presencial, em que o processo ocorre em sala de aula, como acontece há tempos, e o modelo on-line, que utiliza as tecnologias digitais para promover o ensino. Considera-se que esses dois ambientes de aprendizagem, a sala de aula tradicional e o espaço virtual, tornam-se gradativamente complementares”

Em entrevista à TV CPP, a coordenadora de pós-graduação em Metodologias Ativas do Instituto Singularidades e consultora do Instituto Unibanco, Lilian Bacich traz uma definição semelhante, complementando com o fato de que estudantes são diferentes entre si, sendo o ensino híbrido um caminho que abraça essa diferença em termos de efetividade da aprendizagem.

Assim, o debate sobre a necessidade de modelos híbridos de educação é complementar à resolução do CNE e à flexibilidade que as redes necessitam para adequar a oferta da educação pública neste contexto de pandemia e de retomada gradual das aulas presenciais.

Caminhos propostos pelo CNE para a retomada gradual das aulas presenciais

Com o número de casos de Coronavírus ainda alto e a falta de definição quanto à disponibilidade de vacinas, o CNE aprovou a possibilidade de postergar o retorno integral do ensino presencial para até o final de 2021. De caráter mais orientador do que impositivo, o Parecer 11/2020 do CNE, que pode ser acessado neste link vai de encontro à impossibilidade de retorno à normalidade nas escolas, mas também à necessidade de se desenvolver planos capazes de fornecer respostas efetivas para assegurar o direito de todos à educação.

Em um contexto de distanciamento social que obrigou educadores a criar meios remotos de manter seus alunos estudando, o parecer também cita alguns levantamentos de como as redes estão se preparando para o retorno gradual.

Conforme pesquisa da Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede) em parceria com o Instituto Rui Barbosa (IRB), 84% declararam que já iniciaram essa preparação, mas gostariam de orientações dos órgãos e conselhos de educação. As principais frentes desses planejamentos são as avaliações para identificar níveis de aprendizagem e preparar intervenções, reorganização dos espaços físicos e condições de higiene para evitar a contaminação pela Covid-19 e busca ativa de alunos para combate à evasão, além do acolhimento de estudantes e demais membros da comunidade escolar. Nesse sentido, o Instituto Unibanco desenvolveu o protocolo “Acolhimento: ações híbridas e contínuas”, disponível através deste link, que propõe atividades estruturadas que podem ser utilizadas ou servir de inspiração para a promoção do apoio socioemocional durante esse momento.

Embora garantindo autonomia de secretarias e gestores de escolas quanto às definições de como esse retorno deve ocorrer, o documento traz algumas recomendações.

“recomenda-se que os sistemas e organizações educacionais desenvolvam planos para a continuidade da implementação do calendário escolar de 2020-2021, de forma a retomar gradualmente as atividades presenciais, de acordo com as medidas estabelecidas pelos protocolos e autoridades locais.”

O parecer também reforça a importância dos planejamentos estarem de acordo aos objetivos de ensino previstos na Base Nacional Curricular Comum , de preverem a compensação da carga horária curricular através da contabilização das horas de ensino remoto e de estabelecer meios de acolhimento, avaliação de aprendizagem e revisão de conteúdos após a retomada presencial, entre outras recomendações.

Além disso, entre as recomendações pedagógicas, o parecer coloca as atividades de ensino não-presencial como essenciais para complementações ao retorno gradual à sala de aula.

“As redes de ensino e escolas poderão utilizar estratégias não presenciais para a reposição a recuperação da aprendizagem em complementação às atividades presenciais de acompanhamento dos alunos. Importante lembrar que a aprendizagem não acontece somente dentro do ambiente escolar. Aprender a gerenciar vários espaços e a integrá-los de forma aberta, equilibrada e inovadora é essencial. As atividades remotas e o acompanhamento das práticas, dos projetos e das experiências, que ligam o estudante ao mundo que o cerca, podem integrar a carga horária dos diferentes componentes curriculares, flexibilizando o tempo de presença em sala de aula e incrementando outros tempos de aprendizagem.”

Entretanto, cabe destacar as diferenças desse novo momento do que vinha acontecendo até agora, que é mais focado no ensino remoto emergencial. Aplicados conforme os cuidados sanitários exigidos pelas autoridades locais, os encontros presenciais com os estudantes são fundamentais para o funcionamento dessa retomada gradual. Além disso, é preciso desenvolver planejamentos de atividades, ajustes de calendário e promover a articulação entre esses momentos em sala de aula com as atividades remotas.

Assim, modelos de ensino híbrido podem ser considerados essenciais para enfrentar esse momento de cuidado para com a Covid-19 ao mesmo tempo que se retomam gradualmente as atividades presenciais com responsabilidade para garantir o acesso ao direito à educação para todos os estudantes. Para o período posterior à emergência sanitárias da pandemia, esses modelos também viabilizam possibilidades para implementação do Novo Ensino Médio, pois viabilizam a possibilidade de personalização do ensino, o protagonismo e autonomia do estudante como base.

Da mesma forma que o ensino remoto emergencial, esse novo momento precisará considerar as inúmeras desigualdades (como acesso a internet e ao computador, por exemplo) para ser realmente efetiva. Por isso, gestores precisam realizar diagnósticos para conhecer a fundo a realidade de seus estudantes de modo a ter subsídio para elaborar soluções e ferramentas que sejam acessíveis a todos, sob risco de excluir parte do corpo discente da aprendizagem proposta para este momento de retomada.

Conforme escreve o pesquisador George Ricardo Stein no livro “De Wuhan a Perdizes: Trajetos Educativos”, disponível no CEDOC do Observatório de Educação através deste link, é preciso ter em mente que a experiência escolar com alunos e professores reunidos em um mesmo espaço físico durante um tempo definido não se aplicará ao contexto atual de retomada. Além disso, as consequências da pandemia para a saúde mental de todos os envolvidos no processo educacional devem ser consideradas.

Adicionalmente, a realidade da pandemia e seus potenciais impactos relevantes no equilíbrio psicológico e na saúde emocional de alunos, professores e gestores são aspectos a serem cuidados de maneira prioritária, considerando que, sem condições minimamente adequadas de segurança e estabilidade emocional, a aprendizagem será prejudicada. Ou seja, qualquer esforço de aprendizagem, que não integre a experiência e os desafios que estamos vivendo fora da escola por conta da pandemia às expectativas de aprendizagem específicas, tem potencial de não ser significativo e efetivo.”

Assim, os diagnósticos são fundamentais para identificar os impactos emocionais de cada membro da comunidade escolar e como a realidade da pandemia afetou a aprendizagem de cada estudante, uma vez que há fortes divergências entre eles na efetividade do ensino remoto emergencial.

Teorias, críticas e modelos de ensino híbrido

Apesar da emergência sanitária da Covid-19 exigir a implementação de metodologias de ensino remoto completamente online e, posteriormente, de ensino híbrido durante a retomada gradual das atividades presenciais, o debate a respeito do formato combinado não se limita à resposta prática à urgência atual.

Muitos pesquisadores, professores e gestores produzem conteúdo sobre o método desde muito antes da pandemia, vendo nessa modalidade um caminho para a construção de uma educação mais plural, personalizada, que favoreça o protagonismo estudantil e que auxilie na construção de habilidades e competências emocionais e de conteúdo.

Em sua Nota Técnica sobre o ensino híbrido, disponível no CEDOC do Observatório de Educação através desse link, a professora Guiomar Namo de Mello, membro do Conselho Estadual de Educação de São Paulo, afirma que muitos princípios básicos que norteiam esse modelo combinado entre educação presencial e a distância retomam ideias previstas pelas pedagogias ativas, descritas desde o final do século XIX. Centralizar o processo educativo no aluno e na aprendizagem e estimular o protagonismo e a participação para que o aprendido seja eficaz na vida de cada estudante, por exemplo, são ideais importantes das pedagogias ativas e que, nos últimos anos, voltaram ao debate para implantação mediada pelas Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs).

“Embora não levasse esse nome tratava-se, já no surgimento das pedagogias ativas, de um ensino “diversificado”, “misturado”, que hoje leva o nome de “híbrido”. (...) O dado novo da maior relevância foi o surgimento das tecnologias da informação e comunicação (TICs), que vieram potencializar e permitir que o ensino centrado no aluno e na aprendizagem seja não só viável para um grande número de alunos e professores, mas principalmente que seja dinâmico, engajador. O caminho aberto pela inovação pedagógica que já tem mais de 100 anos, ganhou vida nova e fortaleceu-se com o uso das TICs”

Conforme explica a pesquisadora Maria Elizabeth Bianconcini de Almeida no livro “De Wuhan a Perdizes: Trajetos Educativos”, a pandemia evidenciou ainda mais a necessidade de transformações nos currículos escolares, os quais precisam estar conectados às novas tecnologias e aos desafios reais do mundo contemporâneo.

“O currículo do futuro deve ser flexível e aberto à articulação com as múltiplas culturas, à incorporação de questões que emergem da realidade, trabalhando com problematizações, projetos, aprendizagem pela investigação e outras metodologias ativas em experiências curriculares constituídas nas redes”

Citando algumas possibilidades, José Moran explica que, atualmente, o uso de tecnologia para criar modelos híbridos de educação pode favorecer tanto escolas mais inovadoras, que abandonam totalmente a lógica conteudista clássica quanto para mudanças mais simples, adotadas por instituições ligadas a currículos mais tradicionais.

Nas mais inovadoras, o ensino é mais integrado, sem a divisão por disciplinas, com espaços físicos redesenhados, transformando a sala de aula em laboratórios. Utilizando tecnologias para elaborar metodologias diversificadas, essas escolas favorecem o desenvolvimento de valores, competências e habilidades a partir de problemas e projetos mais conectados com a realidade.

Para as escolas que possuem modelos curriculares mais tradicionais, o autor descreve um dos modelos, chamado sala de aula invertida. Nele, o docente propõe os temas que serão pesquisados pelos alunos na internet, em vídeos e na biblioteca, seguido da resolução de três ou quatro questões para avaliação. Em sala de aula, o professor promove debates, orienta os que ainda não dominaram o básico do conteúdo e propõe novos desafios aos que já dominaram.

Naturalmente, as possibilidades de ensino híbrido não se limitam às perspectivas descritas acima. No contexto da pandemia, é fundamental que gestores e professores definam prioridades e adotem o uso consciente das tecnologias durante a retomada presencial. Isso exige a realização de avaliações criteriosas de sua realidade local e do seu corpo discente, de modo a evitar a exclusão e consequente desmotivação dos estudantes, bem como perceber os prejuízos na aprendizagem decorrentes do fechamento das escolas. Essa necessidade é abordada no Conteúdo Multimídia da seção Em Debate disponível neste link.

Professores devem receber formações específicas não apenas para aprender a usar as plataformas digitais adotadas, mas também a aplicar metodologias que prevejam parte dos seus conteúdos em sala de aula e parte em meio digital. Mais do que isso, a tecnologia deve servir de suporte para que educadores e educadoras compartilhem suas experiências, sucessos e insucessos, êxitos e dificuldades no desenvolvimento de modelos híbridos de aprendizagem, bem como as alternativas que desenvolveram para manter as atividades durante o ensino remoto emergencial, de modo a estabelecer redes de apoio entre eles.

Estudantes também devem receber apoio para estabelecer sua rotina de estudos em casa através dos meios digitais. Além disso, a infraestrutura digital das escolas deve ser reforçada para receber os alunos e desenvolver atividades conforme o modelo híbrido.

Construído a partir do livro “Metodologias Ativas para uma educação inovadora: Uma abordagem teórico-prática”, organizado por Lilian Bacich o Professor José Moran, o resumo abaixo explica as bases de alguns modelos de ensino híbrido e observações importantes para cada um deles a serem observadas em função da pandemia de Coronavírus.

Sala de aula invertida

Sala de aula invertida

Conforme explica o pesquisador José Armando Valente, nessa abordagem, o conteúdo e as instruções recebidas são estudados antes de o aluno frequentar a aula, enquanto a sala de aula é o espaço para atividades práticas como resolução de problemas e projetos, discussão em grupo e laboratórios. José Moran explica que esse modelo tem algumas condições para funcionar como a mudança cultural de professores, alunos e pais para aceitar a nova proposta; a escolha de bons materiais, vídeos e atividades para uma aprendizagem preliminar; e um bom acompanhamento do ritmo de cada aluno, para desenhar as técnicas mais adequadas nos momentos presenciais. Durante a pandemia, é importante levar em consideração a realidade do estudante, fornecendo materiais de fácil acesso para ele em casa. Se não houver computador, o material deve ser de fácil acesso pelo celular ou mesmo na forma de textos impressos fornecidos pela escola.

Rotação por Estações

Rotação por Estações

De acordo com a pesquisadora Jordana Thadei, nesse modelo diferentes atividades com recursos, metodologias e objetivos distintos são propostas em diversas estações de trabalho, nas quais os alunos se revezam em diferentes grupos, construindo percursos distintos de aprendizagem colaborativa. O professor orienta os grupos de acordo com as necessidades enquanto os estudantes exploram caminhos para a atividade proposta. Enquanto a pandemia exigir que apenas pequenos grupos de alunos estejam em sala de aula, o professor pode fazer de cada um desses grupos uma estação, orientando-os e para seguir pesquisando e trabalhando em casa, por exemplo. Se forem dois grupos, ao terminar a atividade, o grupo 1 recebe a atividade antes proposta ao grupo 2 e assim sucessivamente.

Naturalmente, a implementação ampla do ensino híbrido nas escolas não é consensual e a adoção ou não de tecnologias digitais em maior ou menor grau no ensino formal fomenta amplos debates. Dentre as críticas, estão a de que a necessidade de adquirir tecnologias responde a interesses empresariais privados e também a de que os professores não possuem formação preparatória para produção de conteúdo digital.

A primeira parte da premissa de que adotar o ensino híbrido na educação básica exige investimentos públicos em plataformas de ensino, aplicativos para smartphone, contratação de planos de internet, produção de vídeos e materiais didáticos, entre outras exigências tecnológicas. Na perspectiva dos defensores desse posicionamento, os movimentos para implementação do ensino híbrido nas escolas e, mais recentemente, as contratações emergenciais durante a pandemia, são apenas meios de favorecer grupos empresariais que fornecem esses meios digitais.

Conforme descreve a pesquisadora Marina Avelar no artigo disponível neste link, o segmento de soluções tecnológicas para a educação no Brasil cresceu muito nos últimos anos, sendo a pandemia um momento chave para explorar esse mercado.

“O uso da tecnologia na educação é visto como um setor financeiramente promissor. Estima-se que o investimento internacional em tecnologia educacional dobre até 2025, chegando a mais de 340 bilhões de dólares. No Brasil, o “mercado educacional” foi o que mais cresceu em número de empresas entre 2013 e 2017, e a educação é o setor com mais startups no Brasil (de acordo com o estudo feito pela Abstartups e o CIEB – Centro de Inovação para a Educação Brasileira). Considera-se que educação tenha um potencial enorme de lucro e seja um dos “últimos bastiões” estatais a ser explorado por empresas e investidores.”

A contratação massiva dessas ferramentas pelos governos, segundo a pesquisadora, também afasta educadores e comunidades locais, que deveriam ser protagonistas, dos processos de desenvolvimento de alternativas para o ensino nesse momento de pandemia. Essa prática acaba não considerando as desigualdades socioeconômicas dos estudantes e a dificuldade de acesso à internet que muitos possuem.

Além disso, não prevê que os educadores tenham acesso a formações específicas para preparar aulas e conteúdos adequados ao formato digital. No Brasil, o universo de professores é diverso, e muitos não tiveram acesso ao mundo digital ao longo de suas vidas. Dessa forma, o desafio de adaptar a didática plenamente ao formato híbrido será menos maçante para alguns, enquanto outros enfrentarão mais dificuldades devido à pouca familiaridade com os recursos digitais. Nesse segundo caso, estabelecer parcerias com outros professores, coordenadores ou mesmo alunos pode ser um caminho para a garantia de aprendizagem plena no formato híbrido.

O centro da discussão da segunda crítica parte da premissa que os professores que estão hoje na educação básica não foram preparados para o modelo híbrido de ensino durante a sua formação acadêmica. Assim, eles precisam de instrução para o uso da tecnologia tanto quanto os estudantes, com o adicional de estarem preparados para produzir o conteúdo digital que estará no centro do processo de aprendizagem.

Conforme escrevem as pesquisadoras Andreia Cristina Freitas Barreto e Daniele Santos Rocha no artigo disponível neste link, “observa-se que os professores e professoras são mais consumidores da tecnologia que produtores. Esse fato se deve ao modelo de formação inicial que precisa ser pensado/adaptado para a contemporaneidade.”

Apesar desse amplo debate, os desafios sociais e de inclusão digital são ainda mais complexos para a implantação do ensino híbrido na educação básica.

Desafios sociais da educação e tecnologia para implementação do modelo

Apesar da emergência sanitária que obrigou a adoção de formatos remotos de ensino e agora conduz a adoção do ensino híbrido durante a retomada gradual das atividades presenciais, a perspectiva de muitos especialistas é de que parte das metodologias adotadas neste momento tornem-se permanentes no cotidiano escolar.

Entretanto, ainda há um longo caminho para a garantia plena do direito à educação no Brasil, situação visível mesmo no formato tradicional antes da pandemia e que se traduz em vários indicadores disponíveis na seção Educação em Números, que você pode acessar através deste link. Além disso, a Covid-19 trouxe ampla visibilidade a outros tantos desafios sociais que dificultaram a adoção plena do ensino remoto emergencial ao longo de 2020.

Nessa perspectiva, a permanência de modelos híbridos de educação tem inúmeros obstáculos sociais e de inclusão digital para se tornar realidade no Brasil. Provocados principalmente pelas desigualdades socioeconômicas do nosso país e pela irregular distribuição de estrutura física e familiar para desenvolver a aprendizagem em casa, muitos desses desafios tiveram grande visibilidade no contexto da pandemia e do ensino remoto.

O infográfico abaixo reúne dados de diferentes levantamentos promovidos por inúmeras entidades referentes a esses entraves.

Em 2018, apenas 26% dos alunos estudavam em escolas com velocidade ou banda de internet suficiente

83% dos alunos das redes públicas municipais vivem em famílias com renda per capita de até 1 salário-mínimo

79% dos alunos das redes públicas municipais têm acesso à internet, mas 46% acessam apenas por celular e 2/3 deles não têm computador

58% dos estudantes de escolas públicas têm dificuldades na rotina de estudos em casa

31% dos responsáveis por esses estudantes temem que eles desistam da escola

Apenas 26% dos alunos estudavam em escolas com velocidade ou banda de internet suficiente em 2018

Em 2018, apenas 42,3% dos alunos tinham professores com recursos profissionais eficazes para aprender a usar dispositivos digitais

R$ 30 bilhões: recursos adicionais necessários para evitar o colapso financeiro das redes públicas de educação básica em função do Coronavírus

Como indicam as estatísticas, as disparidades em termos de infraestrutura tecnológica das escolas e qualificação dos professores, que se somam às desigualdades do aluno brasileiro no acesso à internet, impõem enormes obstáculos à plena implementação do ensino híbrido.

Mesmo com os esforços capitaneados por redes, gestores escolares, professores e alunos para viabilizar o ensino remoto em 2020, a lista de entraves a serem superados inclui a necessidade de criação e/ou aprimoramento de acesso a plataformas de ensino e ferramentas digitais; a oferta de formação em serviço para professores conseguirem se aprimorar na realização do trabalho nesse novo contexto; a promoção do engajamento dos estudantes em torno dessa nova forma de aprender; e o combate à evasão escolar, com ações para o enfrentamento das desigualdades de acesso e à consequente falta de condições de estudo.

No webinário “Desafios do Ensino Híbrido”, promovido recentemente pelo Instituto Unibanco, a subsecretária de desenvolvimento da educação básica da Secretaria Estadual de Educação de Minas Gerais, Geniana Guimarães, explica que reelaborar planejamentos na perspectiva da pandemia foi um grande desafio para as redes, porém proporcionou um olhar mais apurado à realidade das famílias.

Em entrevista publicada pelo Centro de Inovação para a Educação Brasileira, Lilian Bacich ressalta também a necessidade de uma infraestrutura escolar adequada para proporcionar o contato dos estudantes com o digital mesmo nas atividades que ocorrem presencialmente.

“Para trabalhar com qualidade, obviamente é importante ter algum recurso digital na escola, até porque precisamos levar estudantes a se envolverem com a cultura digital. Mesmo que a tecnologia não esteja presente em suas moradias, a escola precisa se responsabilizar pela oferta de situações que desenvolvam a cultura digital, que é uma das competências gerais da BNCC.”

Conforme a pesquisadora, com planejamento e adequação na estrutura já existente nas escolas, é possível começar a aplicação de metodologias de ensino híbrido. Entre as medidas sugeridas pela pesquisadora, está o fornecimento de conteúdo offline para estudantes que não têm internet como vídeos, mapas conceituais ou outros materiais e também a remodelagem dos laboratórios de informática, mudando o formato enfileirado tradicional para uma distribuição de computadores que possibilite trabalhos em grupo.

As transformações pedagógicas necessárias ao modelo

Muito diferente do que simplesmente adotar tecnologia para complementar atividades em sala de aula, o ensino híbrido exige que educadores e estudantes assumam novos papéis no aprendizado. Assim, para adotar esse formato, há algumas transformações pedagógicas indispensáveis e que devem ser adotadas como premissa básica na construção do aprendizado a partir desse modelo. Conforme Lilian Bacich:

“O ensino híbrido demanda uma série de transformações, começando pelos professores e pelas professoras, que devem assumir um papel mediador, de pessoas que participam da construção de experiências de aprendizagem e não se restringem à exposição de conteúdos.”

No formato híbrido, o protagonismo do estudante para a construção do conhecimento é priorizado, o que modifica também o papel do professor. Conforme o pesquisador José Moran:

“O papel do professor é mais o de curador e de orientador. Curador, que escolhe o que é relevante em meio a tanta informação disponível e ajuda os alunos a encontrarem sentido no mosaico de materiais e atividades disponíveis. Curador, no sentido também do cuidador: cuida de cada um, dá apoio, acolho, estimula, valoriza, orienta e inspira. Orienta a classe, os grupos e cada aluno.”

Outra lógica que precisa mudar é a forma de avaliação dos estudantes. De acordo com Bacich, baseá-la apenas na memorização de conteúdos não faz sentido na lógica do ensino híbrido. Essa avaliação precisa ser processual, formativa e considerar todas as atividades. Isso deve ficar claro inclusive para o estudante, de modo a colaborar com a motivação dele nas atividades de ensino cotidianas.

Considerando essas perspectivas, adotar modelos híbridos de educação não é apenas a resposta para o retorno gradual da normalidade nas escolas, mas também caminhos de soluções a serem adotadas em definitivo, e melhor articuladas ao que preconiza a Base Nacional Curricular Comum, abordada em outro especial, que você pode conferir clicando aqui.

Todavia, para ser aproveitado em potência máxima, o ensino híbrido precisa de capacidades, habilidades e engajamento – tanto de professores quanto de alunos –, aliado à superação dos desafios sociais e da inclusão digital. De acordo com Carmem Prata, assessora de tecnologia educacional da Secretaria Estadual de Educação do Espírito Santo, “não basta a secretaria definir metodologia e dispor de plataforma. É preciso que os professores dominem as ferramentas que têm disponíveis, para que consigam enxergar seu potencial e perceber se elas são realmente eficientes para aquilo que estão planejando”.

Para que os professores consigam realizar seu trabalho da melhor forma possível nesses tempos de pandemia, as redes de ensino estão se mobilizando para oferecer formação específica, além de articular dinâmicas de troca entre os educadores, de modo a inspirar e compartilhar experiências de sucesso, dicas e cuidados ao longo da gradual adequação ao novo formato.

Seja com ações com maior centralidade, como ocorre em Minas Gerais, ou com maior autonomia para as escolas, como no caso do Rio Grande do Norte e do Espírito Santo, no que tange à estruturação de conteúdos e da carga horária de ensino, é esperado que as secretarias de Educação compareçam com orientações e o apoio necessário – às escolas, aos professores e aos alunos – para o avanço do ensino híbrido.

Em um diálogo realizado em 2015 durante o evento Transformar 2015, o professor da rede municipal do Rio de Janeiro, Eric Rodrigues, e a diretora da Escola Estadual Jardim Riviera, Cleide Torres, de Santo André, em São Paulo, abordam como as metodologias híbridas podem partir tanto de professores quanto gestores e a importância do apoio mútuo entre eles para construir meios de efetivos de aprendizagem nesse formato.

Caminhos para ampliação do ensino híbrido

Conforme já exposto ao longo deste especial, implementar o ensino híbrido nas escolas exigirá o enfrentamento de inúmeros obstáculos desde a qualificação da infraestrutura digital das escolas, passando pela formação de professores para uso de ferramentas digitais e adaptação de conteúdos e uso de metodologias híbridas até a contrução de novos modelos de gestão escolar, repensando o tempo dedicado em sala de aula e a construção individual de conhecimento de cada estudante.

Durante o período de ensino remoto emergencial, muitas experiências foram desenvolvidas por educadores e gestores, com sucessos e insucessos. Assim, considerar o conhecimento adquirido a partir dessas práticas no processo de formação das professoras e dos professores é essencial no caminho de implementar o ensino híbrido. Para auxiliar nesta jornada, reunimos uma série de conteúdos sobre propostas de aprendizagem híbrida promovidas por professores e materiais informativos para apoiar profissionais de educação nessa jornada.

Outros conteúdos semelhantes estão disponíveis no nosso Banco de Soluções e na plataforma CEDOC do Observatório de Educação.

1 - O ambiente virtual de aprendizagem da EE Professor Fábregas

A professora Roseli da Costa Silva e o estudante Álvaro Antônio de Oliveira contam como a escola implementou em 2018 um ambiente virtual de aprendizagem, aproveitando o excesso de tempo que os estudantes utilizavam os celulares para melhorar suas habilidades de leitura, escrita e compreensão textual.

2 - Tecnologia para enriquecer a experiência em sala de aula

Produzido pelo Portal Porvir, esse vídeo mostra a prática de uso de tecnologia diretamente na sala de aula como forma de aprofundar o conhecimento da disciplina de história. O uso do computador amplia as possibilidades de interação com o conteúdo e favorece o engajamento dos estudantes com o material.

3 - Educação híbrida e seus modelos

Livro educação hibrida

Este material, editado pela Universidade Federal do Paraná, aprofunda os conhecimentos sobre as definições, teorias e metodologias a respeito do ensino híbrido. O livro também descreve em detalhes os diversos modelos possíveis para a aplicação dessa forma de ensino.

4 - Desafios apontados pela OCDE

Tecnologias e docência: relatórios da OCDE apontam desafios

Integrar a educação às tecnologias da informação e comunicação (TICs) é central para adoção do Ensino Híbrido. Contudo, mudanças na rotina docente e demandas por domínio de novas ferramentas podem se tornar um desafio ainda maior quando considerados os níveis de satisfação com a profissão e sua remuneração. Neste conteúdo, exploramos remuneração, condições de trabalho, capacitação e perfil dos professores para guiar gestores nesse processo, utilizando relatórios da OCDE como base.

5 - As lições de outros países com essa modalidade

UNICEF Education COVID-19 Case Study: Empowering teachers to deliver blended learning after school reopening in Malaysia (July 2020)

Impulsionado por epidemias anteriores à Covid-19 na região da Ásia-Pacífico, o ensino híbrido já vinha ganhando força no mundo, o que se acentuou com a pandemia do novo Coronavírus. Nos links abaixo, você pode conferir uma série de estudos acadêmicos produzidos nesses contextos, bem como relatórios e pesquisas de diferentes experiências aplicadas ao redor do Globo:

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