Quando a escola aprende a ouvir: o protagonismo juvenil que transforma a educação
Quando Susi Maria Araújo Pinheiro entrou para o grêmio estudantil de sua escola, em Teresina, ela acreditava que poderia ajudar a promover mudanças. Dois anos depois, aos 18 anos, a estudante já ocupava a presidência da organização e atuava como uma ponte entre os colegas e a gestão escolar.
“A gente faz entrevista com os alunos, pergunta o que estão achando, como está o ensino, se existe algum problema nas salas. Quando identificamos alguma demanda, levamos para a gestão e depois damos um retorno para os estudantes”, contou a jovem, em entrevista ao Observatório de Educação do Instituto Unibanco.
A experiência de Susi ajuda a ilustrar uma transformação que vem ganhando força em diferentes redes de ensino do país: a compreensão de que estudantes não são apenas destinatários das políticas educacionais, mas também sujeitos capazes de contribuir para a construção de soluções frente aos desafios da escola.
Mais do que uma oportunidade de desenvolvimento pessoal e de exercício da cidadania, a participação de adolescentes e jovens nos assuntos que lhes dizem respeito é um direito assegurado por lei. É também um meio que lhes permite promover mudanças que impactem positivamente sua vida presente e futura.
No ambiente escolar, esse direito se traduz na possibilidade de expressar opiniões, apresentar propostas e participar ativamente das discussões e decisões que afetam sua trajetória educacional. E foi justamente essa perspectiva que orientou o 2º Encontro Estadual de Grêmios Estudantis do Piauí, realizado pela Secretaria de Estado da Educação (Seduc-PI) em junho de 2026.
O encontro reuniu lideranças dos grêmios estudantis da capital para uma programação de oficinas e debates voltados ao fortalecimento da participação estudantil e da gestão democrática nas escolas.
A participação como direito
Principais normativas internacionais e nacionais relacionadas à participação social de crianças, adolescentes e jovens e à sua efetivação no ambiente escolar:
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1948 – Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU): Estabelece os fundamentos gerais do direito à participação, com destaque para os direitos à liberdade de opinião e expressão, à liberdade de reunião e associação pacífica, à participação política e democrática, e ao direito de participar livremente da vida cultural da comunidade.
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1989 – Convenção sobre os Direitos da Criança (ONU): Reconhece os direitos da criança e do adolescente à liberdade de pensamento e expressão, bem como de manifestar suas opiniões sobre assuntos que lhe dizem respeito e de tê-las devidamente consideradas. Também reafirma seus direitos à liberdade de associação, à liberdade de realizar reuniões pacíficas e de participar plenamente da vida cultural e artística.
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1990 – Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA, Lei nº 8.069): Assegura os direitos à liberdade de opinião e expressão, à participação na vida familiar e comunitária e à participação na vida política, na forma da lei. Vincula o direito à educação, entre outros aspectos, ao preparo para o exercício da cidadania e garante o direito de organização e participação em entidades estudantis.
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2013 – Estatuto da Juventude (Lei nº 12.852): Situa a participação social e política como um de seus princípios e como um direito dos jovens. Entre suas diretrizes, prevê o incentivo à ampla participação juvenil na formulação, implementação e avaliação de políticas públicas de juventude.
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2014 e 2026 – Planos Nacionais de Educação: O PNE de 2014 (Lei nº 13.005) previu o estímulo à constituição e ao fortalecimento dos grêmios estudantis e sua articulação com os conselhos escolares, como parte das estratégias para promover a gestão democrática das escolas. Já o novo PNE ( (Lei nº 15.388/2026) contempla a ampliação dos espaços de participação dos estudantes e o fortalecimento da organização estudantil de forma geral.
Canal aberto para acolher ponto de vista dos alunos
Na prática, a atuação do grêmio vai muito além da organização de eventos ou da representação formal dos estudantes. Segundo Susi, uma das principais contribuições do grupo está na capacidade de criar canais de diálogo entre diferentes atores da comunidade escolar.
“Às vezes, a gestão percebe coisas que os estudantes não percebem. Em outras situações, os estudantes têm uma visão que a gestão ainda não teve. O grêmio facilita essa conversa”, explicou. Ela citou como exemplo uma discussão recente sobre as monitorias realizadas na escola. A partir de conversas com os colegas, o grêmio identificou que muitos estudantes consideravam a iniciativa pouco eficaz.
As devolutivas dos alunos foram organizadas e encaminhadas à gestão, que passou a discutir formas de aprimorar a atividade. “Quando os estudantes são ouvidos, a gente consegue trazer melhorias de verdade para a escola”, afirmou.
Essa percepção aparece também em experiências mais cotidianas. Susi contou que o grêmio participa da organização de projetos escolares, contribui para eventos e acompanha demandas relacionadas à infraestrutura e ao funcionamento da escola. Segundo ela, o envolvimento dos estudantes ajuda a tornar as ações mais participativas e próximas da realidade dos jovens.

Aprendizado entre pares e desafios comuns
Para as lideranças estudantis presentes no encontro de grêmios do Piauí, um dos principais ganhos do evento foi a possibilidade de trocar experiências com jovens de diferentes contextos.
Durante as oficinas, os participantes compartilharam práticas desenvolvidas em suas escolas e discutiram desafios comuns. Entre as pautas levantadas pelos jovens estiveram o combate ao bullying, o fortalecimento do respeito nas relações dentro da escola e a ampliação dos espaços de participação estudantil nas decisões que afetam a vida escolar.
As discussões evidenciaram que a participação estudantil vai além da representação formal dos colegas. Para os jovens, ocupar espaços de diálogo possibilita contribuir para a construção de ambientes mais acolhedores, respeitosos e favoráveis à aprendizagem.
Os estudantes também refletiram sobre formas de fortalecer a participação estudantil. Entre as ideias que chamaram a atenção de Susi estavam iniciativas simples, mas capazes de ampliar o sentimento de pertencimento dos estudantes, como a realização de bingos e atividades de integração promovidas pelos próprios grêmios.
“Às vezes, a gente fica muito focado em trabalho e escola. Achei interessante ver outras formas de aproximar os estudantes e criar momentos de convivência”, avaliou.
Para ela, encontros como esse ajudam os jovens a identificar possibilidades que podem ser adaptadas às realidades de suas próprias escolas. “É importante saber o que está dando certo em outros lugares para que a gente possa levar essas ideias para a nossa escola também.”
Coleção Juventudes e Participação
Amplie seu repertório sobre participação social de jovens no ambiente escolar com esta seleção de vídeos, entrevistas e publicações disponíveis no Observatório de Educação do Instituto Unibanco:
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Palestra “Juventudes: concepções, demandas e políticas públicas”, com a cientista social Regina Novaes (Instituto Unibanco, 2018).
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Publicação “Jovens e o Ensino Médio: desafios para educação brasileira” (Instituto Unibanco, 2019).
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Entrevista com estudantes secundaristas: “Juventudes: do Ensino Médio que temos ao Ensino Médio que queremos” (Instituto Unibanco, 2017).
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Entrevista com a estudante Rayanne Martins Farias: “EEFM Adahil Barreto Cavalcante – Evasão Escolar” (Instituto Unibanco, 2020).
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Artigo “’Ocupar e resistir’: a insurreição dos estudantes paulistas”, de Ana Paula de Oliveira Corti, Maria Carla Corrochano e José Alves da Silva (Centro de Estudos Educação e Sociedade, 2016).
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Programa Conexão Futura: “Participação adolescente na escola” (Canal Futura, 2015).
Estudantes querem ter vez
Na visão da Secretaria de Estado da Educação do Piauí (Seduc-PI), fortalecer os grêmios estudantis significa ampliar os espaços de participação dentro da escola e estimular a construção de uma gestão mais democrática do ensino público, conforme preconizam a Constituição Federal de 1988 (ver Art. 206) e o Art. 3º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, Lei nº 9.394/1996).
No primeiro semestre de 2026, a rede estadual contava com 497 grêmios estudantis em funcionamento. Segundo o coordenador estadual dos grêmios estudantis, professor Edson Batista, o crescimento é resultado de um trabalho contínuo de formação e mobilização realizado nos últimos anos.
“Quando fizemos o primeiro encontro, tínhamos cerca de 200 grêmios. Hoje são 497 escolas com grêmios estudantis organizados”, afirmou.
Para o coordenador, o principal papel dessas organizações é ajudar os estudantes a compreender que podem participar da construção das soluções para os problemas que afetam o cotidiano escolar.
“O grêmio é um articulador. É parceiro da gestão escolar, mas também ajuda a discutir os problemas da escola e construir encaminhamentos”, explicou.
Segundo ele, as demandas levantadas pelos estudantes seguem um fluxo estruturado. Os temas são debatidos pelos próprios jovens, registrados em ata e encaminhados à gestão escolar. Depois, podem seguir para as Gerências Regionais de Educação (GREs) e para a própria secretaria.
Mais do que encaminhar demandas específicas, o processo busca fortalecer uma cultura de participação. “O que eles mais pedem é vez e voz”, resumiu o professor.
Vale lembrar que a experiência do Piauí encontra eco em outros estados, como Goiás e Rondônia, que desenvolveram materiais de apoio específicos para incentivar a atuação dos estudantes nos grêmios estudantis.
O Ministério da Educação (MEC) também atua no fomento da participação estudantil por meio do Programa Nacional de Grêmios Estudantis – Participa Jovem, lançado em abril de 2026. A iniciativa busca incentivar a criação e o fortalecimento dos grêmios nas escolas de educação básica, promovendo o protagonismo juvenil e a participação democrática dos estudantes, em consonância com a Lei nº 7.398/1985, a Lei do Grêmio Livre.
Outra iniciativa do MEC é o Programa Nacional de Fortalecimento dos Conselhos Escolares (PNFCE), criado em 2004 e voltado à formação de conselheiros escolares – estudantes, professores, gestores e outros funcionários, pais ou responsáveis e representantes da comunidade local. O programa busca ampliar a participação da comunidade escolar na gestão administrativa, financeira e pedagógica das escolas públicas.

Materiais de apoio
Conheça as publicações das secretarias estaduais de Educação de Goiás e Rondônia com orientações para a criação e organização de grêmios estudantis:
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Cartilha Grêmio Estudantil (Governo do Estado de Goiás/Secretaria de Educação de Goiás, 2022).
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Grêmio Estudantil Rondônia 2026 (Governo do Estado de Rondônia/Secretaria de Estado da Educação, 2026).
Participar para transformar
Ao longo do encontro de grêmios do Piauí, as discussões sobre democracia, escuta e participação reforçaram uma ideia comum entre estudantes e gestores: a qualidade da educação não depende apenas das decisões tomadas pelos adultos.
Quando os jovens encontram espaços legítimos para participar, propor e dialogar, a escola se torna mais conectada às necessidades de quem vive diariamente seus desafios e potencialidades. Para Susi, esse é um aprendizado que ultrapassa os muros da escola.
“Hoje somos jovens e adolescentes, mas mais tarde vamos participar da vida civil, política e social. Por isso é importante aprender desde agora a ter responsabilidade e integrar as decisões”, diz a estudante. Sua experiência traduz, na prática, a concepção de protagonismo juvenil difundida pelo pedagogo Antonio Carlos Gomes da Costa (1949-2011): a atuação dos jovens como personagens principais de uma iniciativa, atividade ou projeto voltado para a solução de problemas reais.
Para o educador, que aprofundou o conceito na obra “Protagonismo juvenil: adolescência, educação e participação democrática” (Fundação Odebrecht, 2000, em coautoria com Maria Adenil Vieira), o cerne do protagonismo está na participação ativa e construtiva do jovem na vida da escola e da comunidade e, de modo mais amplo, em seu próprio desenvolvimento.
Nesse contexto, ao abrir espaço para que estudantes participem da construção de soluções, os grêmios estudantis ajudam a promover não apenas a democracia na escola, mas também a formação de cidadãos mais preparados para atuar na sociedade.
Saiba mais
Outras leituras sobre protagonismo juvenil:
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“Protagonismo juvenil e participação escolar: sob o olhar dos estudantes”, de Dayane Priscilla Bernardes Anjos, Francisco Audy Anjos Freire Júnior, Kaiomarcos Luciano Santos Ferreira, Thatiany Rodrigues Ferreira e Iracema Campos Cusati (Universidad Nacional de Mar del Plata, 2021).
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“Fortalecimento do protagonismo juvenil e participação na gestão democrática da escola”, de Gabriel Medina de Toledo (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, 2021).
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“O protagonismo juvenil na escola: participação do grêmio estudantil na gestão democrática”, de Fabiane da Silva Sanchez (Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2022.
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”Protagonismo juvenil e educação da juventude no ensino médio brasileiro”, de Kathiuscia Aparecida Freitas Pereira (Unesp, 2009).
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“O ‘novo’ nos programas para a juventude da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo”, de Maria Cecilia Luiz, Nádia Perez Pino e Clarissa Bengtson (Cadernos Cedes, 2020).
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”Protagonismo juvenil: construção e participação nos grêmios estudantis nas escolas públicas da CREDE 14, no Ceará”, de Yres Stella Macedo Vieira (Universidade Federal de Juiz de Fora, 2023).