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Coleção propõe debate sobre a formação continuada de professores da Educação Básica

29/10/2020

CURADORIA: Instituto Unibanco

Introdução

A Coleção Os Desafios da Formação Continuada de Professores na Educação Básica tem como objetivo fomentar a discussão teórica sobre a importância da formação ao longo da carreira docente para a melhoria da qualidade da Educação Básica e trazer caminhos para o enfrentamento de tais desafios, servindo como subsídio para as discussões de redes de ensino, escolas e educadores.

Estamos considerando aqui a formação continuada como um processo que traz possibilidades de transformação nas práticas pedagógicas e no contexto escolar. De acordo com Imbernón (2010),[1] a formação continuada de professores pode ser entendida como parte do desenvolvimento profissional que acontece ao longo da atuação docente com o intuito de aperfeiçoar a prática pedagógica e possibilitar a adaptação aos diferentes contextos, trazendo novos significados para o papel do educador. Tal processo é, contudo, atravessado por dificuldades, tais como falta de investimentos, espaços físicos comprometidos, fragilidade na formação inicial, falta de material didático-pedagógico e, mais recentemente, com o cenário pandêmico, implementação de ensino remoto e híbrido, entre outros.

O ato de ser professor e professora se molda às condicionalidades sociais e históricas, e essa mudança não se dá exclusivamente através da formação acadêmica. É preciso considerar as múltiplas possibilidades de intervenções pedagógicas que vão se criando ao longo da trajetória de educadores e educadoras, ou seja, seu próprio trabalho gera espaço para reflexões e ressignificações da experiência docente. Exemplo disso é a necessidade imposta pelo coronavírus de que educadores de diferentes contextos dominem tendências de mediação tecnológica e de metodologias ativas.

As redes de ensino sistematicamente buscam desenvolver programas de formação continuada de professores. Mesmo assim, os resultados de aprendizagem dos estudantes no Brasil, a partir dos resultados de avaliações externas como o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e o Pisa, dão indícios de que esses processos não têm sido suficientes e adequados à contemporaneidade, que faz com que os educadores se deparem com um corpo discente cada vez mais estimulado, de diversas formas, pelos ambiente virtuais e tecnológicos. Além disso, o cenário educacional vem apontando para a necessidade de diversificação das plataformas de ensino: além da sala de aula, da lousa e dos livros, outras ferramentas estão se tornando instrumentais importantes para os docentes. O ensino híbrido e remoto demonstra que existem outras formas de ser professor e de educar. A proposta desta coleção é apontar elementos para que redes de ensino, escolas e educadores discutam a formação continuada de professores a partir do cenário atual da Educação Básica e pública brasileira, e colaborar para que esse debate traga elementos para a formulação de programas cada vez mais aderentes às necessidades de educadores e estudantes.

Iniciamos a indicações desta coleção pela tese de doutorado de Carmem Lúcia Rodrigues Alves para o Programa de Pós-graduação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, de 2018. Nela a autora, por meio de um estudo etnográfico de uma experiência de formação de professores, discutiu aspectos históricos e estruturais da carreira e formação docente. Intitulado A Formação Docente na Contemporaneidade: do Sintoma à Possibilidade, o texto traz um debate importante sobre os limites da formação continuada de professores, por exemplo, o fato de o fracasso escolar não ser responsabilidade exclusiva de déficits na formação docente. Outra indicação também fruto de uma pesquisa acadêmica é a dissertação de mestrado Sequência de Ensino-Aprendizagem no Processo de Formação Continuada: Contribuições e Reflexões de Professores em Exercício (2016), desenvolvida por Alexandre Mota Menezes da Universidade Federal de Sergipe. O autor, utilizando como personagens professores de Ciências inseridos em um processo de formação continuada em serviço, discute as dificuldades enfrentadas pelos educadores na abordagem dos conteúdos, na relação aluno-professor e nas questões estruturais do ambiente escolar.

A curadoria da coleção destaca ainda o artigo produzido por Gláucia da Silva Brito, Ariana Chagas Knoll e Michele Simonian para a revista e-Curriculum, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Em “Formação continuada de professores em tecnologia: a ’ousadia’ na dialocidade entre a universidade e a escola”, de 2017, as autoras propõem um balanço sobre os resultados do projeto de formação continuada Tecnologias e Educação na Cibercultura, desenvolvido pela Universidade Federal do Paraná em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de Curitiba e a Secretaria de Educação da Básica do Ministério da Educação entre os anos de 2013 e 2015. Uma conclusão importante das autoras é que o projeto reaproximou os professores participantes da universidade, fazendo com que suas realidades pessoais enquanto educadores se rearticulassem com a “vida teórico-acadêmica”. A análise teve como suporte o depoimento de professores que participaram desse processo de formativo.

Nessa linha que aponta a necessidade de agregar elementos tecnológicos à formação continuada de professores, o podcast Chão de Escola, produzido em 2020 pelo Canal Futura e pela Fundação Roberto Marinho, faz uma discussão sobre o tema no Episódio 8 - Ensino híbrido: o encontro da educação com a tecnologia. Hugo Rosas e Ana Carolina Malvão entrevistam Carla Fernanda Ferreira e Wellington Fraga sobre os desafios impostos pelo momento atual de pandemia, como esse cenário se relaciona e se diferencia do ensino híbrido e como altera a rotina dos educadores.

Para pensar o papel do professor no contexto da pandemia e de ensino remoto e de outras facetas do ofício demandadas nesse momento, a coleção destaca a entrevista feita pelo Instituto Unibanco, também em 2020, com a diretora de Desenvolvimento Pedagógico da Comunidade Educativa Cedac, Patricia Diaz, sobre o tema “Desafios da Educação em Tempos de Pandemia. Ela traz uma discussão importante sobre a necessidade de educadores serem formados para trabalhar com ambientes tecnológicos, mas pondera que os docentes possuem níveis diferentes de familiaridade com tais ambientes.

Finalizamos as indicações desta coleção com o artigo “A formação continuada do(a) professor(a) em meio à pandemia da covid-19”, de Janile Pinto, Cristiane Venturin e Luciane Cunha da Costa, publicado em 2020 pela Revista de Administração Educacional da Universidade Federal de Pernambuco. As autoras falam sobre o processo de formação continuada de professores da rede municipal de educação de Ilhéus (BA) durante a pandemia e traçam proposições de como os educadores e a rede podem se preparar para o período pós-covid-19.

A reflexão sobre a formação continuada dos educadores da Educação Básica é uma pauta que continuamente demanda atenção dos gestores das redes de ensino. Entretanto, o momento atual faz com que esse tema ganhe maior relevância e urgência.

 

 

 

[1] IMBERNÓN, F. Formação continuada de professores. Porto Alegre: Artmed, 2010.