Juventudes

Coleção discute juventudes negras e a educação científica pautada nas questões étnico-raciais

31/08/2021

CURADORIA: Associação Brasileira dos Pesquisadores Negros (ABPN) e Instituto Unibanco

Introdução

A Coleção Juventudes negras e a educação científica pautada nas questões étnico-raciais convida jovens negros/negras, bem como profissionais da educação e pesquisadores/pesquisadoras da área a refletir e aproximar-se de formações e letramentos científicos e raciais que propõe-se e estruturam-se de modo a potencializar as juventudes negras.

Consta enquanto objetivo desta coleção evidenciar a importância de iniciativas que considerem a articulação entre instituições de ensino da educação básica, de ensino superior e dos movimentos sociais como forma de potencialização das juventudes negras, criando referências positivas e inspirando talentos entre os/as jovens negros/negras, considerando para tal o conhecimento sobre a produção de científica e letramento racial.

 

Considerando os objetivos desta coleção, para consolidar as reflexões e debates sobre o tema proposto, foram selecionados documentos e produções distintas de modo a estruturar os eixos desta coleção: i) outras percepções sobre as juventudes negras; ii) racismo, extermínio da população negra e a pedagogia da crueldade; iii) interseccionalidades entre raça e gênero refletidas nas juventudes; iv)a diversidade e a política do reconhecimento das diferenças; v) a diversidade e a produção de conhecimento científico; vi)educação antirracista; por fim vii) formas distintas para compreender a desigualdade racial na educação brasileira.

 

A instrumentalização sobre o fazer ciências pautada nas produções Africanas e Diaspóricas, de modo a articular instituições distintas, integrando um coletivo de produção de conhecimento científico que parte das trajetórias e memórias da população negra assume singular importância. Enfatizado aqui diversidade e a capilaridade possível quando se congrega as distintas instituições. Desta forma é possível contribuir para uma formação para a cidadania e para a mobilização social, em prol de uma educação mais equânime para as Juventudes negras.

 

A educação dialoga com todas essas áreas em busca de problematizações, feituras e encruzilhadas. Esta seleção, portanto, expressa ainda os desafios enfrentados na construção de uma educação crítica e pós-moderna, uma pedagogia decolonial, antirracista, e na encruzilhada das temáticas de juventude, raça, gênero, diversidade sexual, desemprego e trabalho, ócio e cansaço. O respeito às diferenças e a luta antirracista tem se alicerçado em uma prática pedagógica antirracista e tem sido objeto de inúmeros debates.

 

É importante aqui reiterar a importância de considerar a pluralidade de jovens negros e negras, justificando, portanto o uso do termo juventudes no plural. As representações de forma estereotipada e negativa provocam marcas em suas subjetividades. É possível perceber caminhos que questionam a naturalização de estigmas e indicadores de vulnerabilidades social aos corpos negros jovens no texto “A urgência de outras ideias sobre as juventudes negras no Brasil”[1]. A análise feita por Samara Ferraz e colaboradores/as, considera os instrumentos de comunicação instantânea e indicam a urgência em perceber a multiplicidade de repertórios e experiências dos/as jovens negros/as.

 

Além dos estigmas e das fortes marcas em suas subjetividades em decorrência do racismo, algo que afeta diretamente dos/as jovens negros/as é o genocídio. Qual o impacto do racismo e das desigualdades que permeiam o campo econômico, social, mas ainda o campo do conhecimento; no extermínio de jovens negros/as. Nilma Lino Gomes e Ana Laborne, no texto “Pedagogia da crueldade: racismo e extermínio da juventude Negra[2]”, retrataram um maior protagonismo das Juventudes na luta contra o racismo e na busca por contextos sociais mais equânimes, assim como a tipificação da violência enquanto genocídio. Assim como relatado pelas autoras, um estado enquanto democrático deve estar atento e zelar pelo direito à vida de todos/as cidadãos e cidadãs.

 

Há ainda outro aspecto a considerar que remete às intersecções de raça e gênero. Em “Jovens negras periféricas: afloradas interseccionalidades de raça e gênero” [3], trabalho realizado por Silvani Valentim e Andréia de Souza, é promovida uma análise sobre a articulação das categorias acima citadas em relação ao contexto socioeconômico e do mundo do trabalho. Como dito pelas referidas autoras, são interseccionalidades afloradas, pois excitam e tensionam a realidade das jovens negras trabalhadoras, produzindo subjetividades a partir das construções identitárias de raça e gênero.

O respeito às diversidades, a luta por justiça, por contextos mais equânimes, pelo direito e zelo à vida, denotam uma verdadeira democracia. Kabengele Munanga em “A questão da diversidade e da política de reconhecimento das diferenças”[4] apontou enquanto consequência do reconhecimento da diversidade, a implementação de políticas públicas afirmativas e consolidação de pedagogia antirracista que tem o intuito de promover oportunidades de modo equânime.

 

Ao perceber a diversidade e considerá-la como estruturante na elaboração de políticas públicas, na estruturação de currículos escolares, na atuação de docentes, há ainda que se considerar a diversidade em campos de produção de conhecimento científico. Em “Cinco pontos sobre diversidade na produção científica[5], a autora Anna Benite destaca que a Ciência ensinada nas escolas de educação básica, bem como nas universidades brasileiras, é pouco diversa. Considera ser indispensável a inclusão de outros grupos sociais na produção de conhecimento , sendo este um elemento que traz inovação.

 

Perceber e considerar a diversidade nesses espaços causa uma série de impactos na educação. Em vídeo intitulado “Educação Antirracista”[6] é debatido sobre a responsabilidade da educação em assumir postura antirracista. Com o intuito de entender melhor tais questões, o Observatório reuniu diversos arquivos sobre Desigualdade racial na educação brasileira: um Guia completo para entender e combater essa realidade”[7]. Estão disponíveis aí diferentes conteúdos desde o que é a desigualdade racial na educação brasileira; legislações e indicativos de caminhos e soluções de gestão para combater a desigualdade racial na educação.

 

Essa coleção disponibiliza diferentes conteúdos em diferentes formatos, de modo a incitar reflexões e propor caminhos que considerem o protagonismo das Juventudes negras, assim como a importância e necessidade de propor e estruturar educação científica pautada nas questões étnico-raciais, de modo a contribuir com maior inserção de jovens negros/as em ambientes acadêmicos, contribuindo assim com a mobilidade social dessas Juventudes.

 

[1] PEREIRA, J. G. et al. A urgência de outras ideias sobre as juventudes negras no Brasil. Revista ABPN, v. 12, n. 31, p. 319-335, fev. 2020.

[2] GOMES, Nilma Lino. LABORNE, Ana Amélia de Paula. Pedagogia da crueldade: racismo e extermínio da juventude negra. Educação em revista, v. 34, 2018.

[3] VALENTIM, S. S.; SOUZA, A. C. Jovens negras periféricas: afloradas interseccionalidades de raça e gênero. Teias (Rio de Janeiro), v. 21, p. 23-37, 2020.

[4] MUNANGA, K., A questão da diversidade e da política de reconhecimento das diferenças. Crítica e Sociedade: revista de cultura política. v. 4, n.1, Dossiê: Relações Raciais e Diversidade Cultural, jul. 2014.

[5] BENITE, Anna Maria Canavarro. Cinco pontos sobre diversidade na produção científica. Disponível em: https://pp.nexojornal.com.br/perguntas-que-a-ciencia-ja-respondeu/2020/5-pontos-sobre-diversidade-na-produ%C3%A7%C3%A3o-cient%C3%ADfica.

[6] Educação Antirracista. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=A_LMaz5modQ

[7] Desigualdade racial na educação brasileira: um Guia completo para entender e combater essa realidade.