Equidade

Coleção foca periferia e trajetórias escolares

14/02/2020

CURADORIA: Instituto Maria e João Maria Aleixo (IMJA)/Instituto Unibanco

Curadoria mostra periferia como lugar de potência.

A agenda política do mundo social dominado por representações das periferias – e de seus moradores – está baseada em estigmas que impedem uma apreensão global e complexa sobre as realidades sociais, econômicas, políticas, ambientais e culturais desses territórios. Para além desse limite, todavia, apostamos no compartilhamento de encontros e olhares sobre essas realidades a partir do reconhecimento de suas possibilidades e potências.

 

A disputa no campo das representações e práticas periféricas tem sido objeto de atenção e reflexão por parte de um conjunto de pesquisadores e militantes que acreditam na transformação e na realização de um imaginário social baseado na construção de paradigmas que não perpetuem mais essas representações estereotipadas sobre as periferias. Afinal, estas terminam por orientar, muitas vezes, políticas públicas e investimentos sociais privados que penalizam esses territórios e contribuem para a reprodução das desigualdades. Entendemos que falar da periferia como potência contribui para a construção de outras narrativas e (re)conhecimentos desses espaços, assim como colocam na ordem do dia a compreensão de que sujeitos e territórios periféricos devem ser levado em conta de forma devida para a constituição de uma sociedade efetivamente democrática. 

 

Nessa perspectiva, somos motivados a formar parcerias com agentes sociais por meio de redes de pessoas pesquisadoras e docentes que estudam, trabalham e militam neste mesmo contexto na perspectiva de entender que as trajetórias escolares possibilitam sentidos outros para a educação. Assim, escrever para esta coleção do Instituto Unibanco é também afirmar o quanto a parceria com o UNIperiferias/IMJA nos motiva no exercício da construção compartilhada de narrativas apoiadas em novos referenciais teóricos, políticos, culturais, corpóreos e territoriais para pensar, viver e transformar o mundo da vida, tendo como referência os sujeitos em suas periferias.

 

As referências de leituras que apresentamos nesta coletânea, organizada pelo Instituto Unibanco, foram pensadas e elaboradas no calor de muitas reflexões, debates e construções epistemológicas que consideramos essenciais para a desconstrução de paradigmas sociocêntricos.

 

A primeira indicação de leitura é o livro Por que uns e não outros, uma síntese da tese de Jailson de Souza e Silva defendida em 1999. O livro aponta como característica as trajetórias de pessoas de origem popular que socialmente são distintas, com o intuito de atingir a percepção a partir dos grupos sociais populares e os espaços de moradia, trazendo uma análise do que pode ser considerada a potência da periferia. O recorte temático diz respeito a moradores da Maré que apresentam suas caminhadas escolares até a universidade, propondo-se o estabelecimento de analogias de outros sujeitos a partir do relato e da análise das experiências particulares trazidas na obra.

 

Silva questiona os pressupostos da análise sobre desigualdade de desempenho escolar pactuado pelas correntes liberais, centrada na responsabilização dos alunos e redes familiares, assim como problematiza a interpretação assumida por correntes pedagógicas pretensamente progressistas que, de forma reducionista, atacam as instituições escolares públicas e as responsabilizam por tais desigualdades. As duas posições deixam de reconhecer a potência presente nos sujeitos das instituições educacionais públicas e contribuíram para a construção do mito de que a os/as estudantes da escola pública não conseguem aprender e que a instituição não consegue ensinar.

 

Uma das contribuições possíveis para o fortalecimento do exercício da cidadania plena é a constituição das instituições escolares, entre outras, como redes sociopedagógicas. Elas funcionariam como espaços de mediação entre diversos campos sociais, ampliando o campo de possibilidades dos seus alunos. A materialização de uma postura como a sugerida exige que os profissionais da escola busquem apreender cada estudante como ser singular, Reconhecer que ele pensa, interpreta e age de acordo com as disposições desenvolvidas em sua socialização e, em função disso, das estratégias que constrói e/ou em que acredita. Identificá-las e interpretá-las, portanto, é fundamental para a construção de ações pedagógicas adequadas para esse público, no espaço escolar. Por que uns e não outros? é uma contribuição a mais para esse diagnóstico, iniciativa cúmplice de tantas outras que apontam para novas utopias, e solidária com as escolas e educadores que contribuem para que elas se façam reais.

 

Favelas: as formas de ver definem as formas de intervir, artigo produzido também por Jailson de Souza e Silva, nos ajuda a entender, por meio das reflexões de Gary Dymski referentes às maneiras possíveis de “ver” a favela, as “características socioculturais dessa população, suas práticas e suas representações sociais” (p.47), que atualmente fazem parte da agenda política em “variados campos do mundo social, tanto os interessados na mera formação de novos consumidores como os comprometidos com o exercício da cidadania plena pelo conjunto da população Brasil”.

 

Em nossa terceira indicação de leitura, Juventude, práticas culturais e negritude: o desafio de viver múltiplas identidades, de Nilma Lino Gomes, encontraremos uma importante reflexão do que é ser jovem e negro no Brasil e como se dá a construção dessa identidade por meio das produções e narrativas culturais afro-brasileiras encontradas nas periferias, abordando “alguns aspectos do cotidiano de jovens negros/as, moradores da periferia de uma metrópole” no sentido de “compreender as práticas culturais desenvolvidas” por este jovens e as possíveis influências da sua participação em grupos culturais juvenis”.

 

No texto Histórias de vida e perspectivas de futuro das mulheres da periferia, escrito por Maria Alice Setubal, será possível refletir sobre o papel da mulher na sociedade, fazendo um recorte com a representação da mulher moradora de áreas de alta vulnerabilidade social que enfrenta, por meio de lideranças comunitárias e culturais, o desafio de desconstruir ideologias hegemônicas que mantêm as desigualdades de gênero principalmente em áreas periféricas.

 

Nossa quinta indicação visando a formação de uma leitura crítica sobre a temática que propomos é o texto As favelas como territórios de reinvenção da cidade, de Jailson de Souza e Silva e Jorge Luiz Barbosa, que traz uma importante análise sobre as formas como as favelas são representadas no âmbito da cidade e de como é possível percebê-las a partir de suas condições de território constituinte do urbano como um "problema", "desvio" ou expressão da "anticidade". O reconhecimento, portanto, de suas potências é uma premissa central para que os moradores das favelas possam afirmar plenamente sua condição de sujeito de direitos e, portanto, da cidade.

 

Por fim, apresentamos nossa última indicação de leitura, o texto Vulnerabilidade e resiliência diante da violência escolar, escrito por Maria Eugênia de Oliveira Mendes Maia, que aborda a “questão da violência escolar, não somente procurando compreender a magnitude e as especificidades dessa forma de violência, mas, acima de tudo, procurando compreender porque algumas escolas conseguem vencer os obstáculos impostos pelos diversos tipos de violência presentes no seu interior e em suas imediações, enquanto outras se tornam vítimas da situação, colocando em risco a integridade física, psicológica e moral de seus membros, assim como, o processo de ensino e aprendizagem”.

 

É nesse universo de leituras, que apontam reflexões necessárias e urgentes para a construção de outros modos de ver, sentir e pensar as periferias, seus sujeitos e representações, que esperamos que os leitores e leitoras que aqui se apresentam possam compartilhar conosco os novos campos de disputa epistemológicas e conceituais para a formação de uma sociedade plural, diversa e democrática.

 

A autoria deste texto é compartilhada por Jailson de Souza e Silva (diretor geral do UNIperiferias/IMJA), Patrícia Elaine Pereira dos Santos (diretora colaboradora do UNIperiferias/IMJA) e Luciana Ribeiro (coordenadora do eixo formação da UNIperiferias/IMJA).