Recomposição tornou-se agenda institucional
Boletim Aprendizagem em Foco - ed.113 | Agosto 2026
Estudo analisou 151 práticas de redes estaduais e municipais em diferentes eixos de atuação
Política se consolida como estratégia para enfrentar desigualdades históricas na educação brasileira
É preciso, porém, avançar num entendimento comum sobre a definição e objetivos da recomposição
Arecomposição das aprendizagens deixou de ser uma resposta emergencial ao período da Pandemia e tornou-se uma agenda institucional das redes educacionais. Essa é uma das mensagens centrais de uma pesquisa realizada pelo Ministério da Educação, com apoio do Instituto Unibanco, em 25 Unidades da Federação e 16 capitais. O levantamento investigou o entendimento sobre essa estratégia em cada rede, o grau de institucionalização da política, a estrutura de governança e abrangências das ações. Foram mapeadas também 151 iniciativas, o que permitiu uma análise de estratégias em diferentes eixos de atuação, classificando-as a partir de três níveis: ações incipientes; parcialmente estruturadas; e desenvolvidas.
A ideia de que estudantes com dificuldades na aprendizagem necessitam de atenção especial e ações específicas para que não fiquem para trás não é recente no campo educacional. A pandemia, porém, reforçou essa necessidade, e tornou mais conhecida a concepção de recomposição de aprendizagens. Eventos climáticos extremos, que levam ao fechamento súbito de escolas, também reforçaram o apelo para que as redes educacionais possuam políticas estratégias permanentes para enfrentar situações que agravam a desigualdade na aprendizagem.
Esse consenso resultou, em 2024, no lançamento do Pacto Nacional pela Recomposição das Aprendizagens, construído pelo MEC em parceria com as secretarias estaduais e municipais de educação. Mais do que um plano de ação para situações emergenciais, a política vem se consolidando como uma estratégia para enfrentar desigualdades históricas na educação brasileira.
Alguns aspectos da recomposição de aprendizagens, bem como lições internacionais e nacionais, já foram abordados em edições recentes do Boletim Aprendizagem em Foco. O boletim de número 106, por exemplo, destacou experiências internacionais apresentadas no V Seminário de Internacional de Gestão Educacional, realizado pelo Instituto Unibanco, em agosto de 2025. A priorização criteriosa de habilidades fundamentais no currículo, o apoio aos estudantes em tutorias em pequenos grupos, a formação docente e o agrupamento temporário de alunos por níveis de aprendizagem foram estratégias destacadas por especialistas no encontro.
A pesquisa do Ministério da Educação a partir da experiência de redes estaduais e municipais brasileiras traz novos insumos para qualificar o debate em relação à recomposição das aprendizagens, que será novamente tema do VI Seminário Internacional de Gestão Educacional, a ser realizado em 26 de agosto de 2026 pelo Instituto Unibanco.
A constatação de que a recomposição se tornou uma agenda institucional é embasada no fato de a maioria (mais de 80%) das 151 ações analisadas nos 41 entes federativos que responderam à pesquisa terem respaldo normativo, além de designação de equipes próprias, rotinas e estruturas de coordenação. Apesar desse diagnóstico positivo, o levantamento também indica que é preciso avançar num entendimento comum sobre a definição de recomposição das aprendizagens e de seus objetivos.
Quando perguntados sobre como definem e entendem a recomposição das aprendizagens, duas perspectivas principais se sobressaem. A primeira enfatiza a necessidade de garantir o desenvolvimento de habilidades essenciais que não foram plenamente consolidadas pelos estudantes em etapas anteriores da trajetória escolar. A segunda entende a política como uma estratégia mais ampla, voltada à promoção da aprendizagem, à redução das desigualdades e à garantia de oportunidades educacionais para todos os estudantes. Conforme destaca o texto da pesquisa, embora complementares, essas diferentes compreensões tendem a produzir ênfases distintas no desenho e na implementação das políticas.
Apesar de diferentes concepções, a pesquisa destaca que há forte consenso nacional sobre a importância da recomposição. A análise das práticas relatadas pelas secretarias permite identificar também que as redes avançaram mais rapidamente no núcleo pedagógico da recomposição. Isso significa que formação, avaliação, mediação pedagógica e currículo estão disseminados como eixos estratégicos. O sequenciamento das aprendizagens, o uso pedagógico das avaliações, ações de diferenciação pedagógicas e de desenvolvimento profissional contínuo, no entanto, ainda precisam avançar mais.
Para Fabiana Bento, responsável pelo desenho e coordenação da pesquisa, um ponto importante a ser enfatizado é não confundir a estratégia de recomposição das aprendizagens com uma tentativa de empobrecimento curricular, como se para determinados alunos fosse suficiente trabalhar apenas conhecimentos básicos. Identificar e trabalhar nas lacunas das habilidades essenciais que os estudantes deixaram de desenvolver precisa ser entendido como um ponto de partida para que os alunos em situação de maior vulnerabilidade não fiquem para trás em relação aos demais.
Outro ponto de atenção que a pesquisa traz é a necessidade de ampliar a capacidade de identificar e apoiar estudantes em situação de maior vulnerabilidade, a partir de ações que vão além do pedagógico, voltadas à permanência, saúde e bem-estar, além da atenção aos efeitos de eventos climáticos extremos.
Uma boa notícia identificada no levantamento é que já há nas redes um conhecimento acumulado a partir de experiências locais, que podem promover a aprendizagem entre diferentes entes federativos. Por fim, o levantamento identifica que ainda é preciso caminhar no fortalecimento de uma cultura de uso de dados para tomada de decisão e que estruturas de governança podem ser aprimoradas.
RECOMPOSIÇÃO NA PRÁTICA
Uma das experiências analisadas na pesquisa é da rede estadual do Mato Grosso do Sul. Lançado em 2023, o projeto Aprendizagem em Ação se destaca por articular diferentes instâncias (desde a secretaria até às escolas, passando pelas regionais) em torno de uma estratégia comum de recomposição das aprendizagens. O projeto combina também avaliação contínua, monitoramento sistemático e intervenções pedagógicas direcionadas aos estudantes com maiores defasagens, por meio de acompanhamento mais individualizado e da atuação de professores mediadores.
O secretário de Estado da Educação do Mato Grosso do Sul, Helio Queiroz Daher, afirma que um dos diferenciais do projeto é o estímulo a criação de vínculos entre professores e estudantes. No início do ano letivo, por uma semana, professores ficam exclusivamente dedicados aos alunos que foram identificados como prioritários. O objetivo principal, de início, não é a recuperação de conteúdos acadêmicos, mas, sim, a criação de laços de confiança, que serão fundamentais ao longo do ano letivo para que o aluno se sinta apoiado em suas necessidades.
“Nenhum aluno reprova ao final do ano. Ele começa a ser reprovado já em março, e apresenta sinais disso desde cedo. Por isso é tão importante criar esse vínculo com o professor desde o início, para que construam uma relação de confiança e apoio. Se deixar para recuperar no final, fica muito mais difícil”, diz Daher.
Outro programa analisado foi o Projeto Voando Mais Alto, da rede estadual do Ceará. O Estado já tem uma experiência consolidada e reconhecida de regime de colaboração com os municípios, e essa estrutura é aproveitada também nas ações de recomposição das aprendizagens. O projeto integra recursos didáticos, capacitação contínua, diretrizes curriculares e suporte às redes municipais, viabilizando a implementação ampla e territorialmente consistente de ações de recuperação.
Essas e outras iniciativas mapeadas evidenciam que o Brasil já tem muito a aprender com o próprio Brasil, a partir das lições que podem ser compartilhadas entre diferentes redes de ensino. A agenda de recomposição, mais do que uma ação pontual, pode e deve ser integrada a uma política mais ampla de promoção de equidade e combate às desigualdades históricas presentes no sistema educacional brasileiro.

Diagnístico das ações de recomposição das aprendizagens,
MEC/Instituto Unibanco, 2026: bit.ly/45oy140
Guia para implementação da recomposição das aprendizagens.
MEC, 2024: bit.ly/3WE6eZ4
Recomposição de aprendizagem: lições internacionais.
Boletim Aprendizagem em Foco/Instituto Unibanco, 2025: bit.ly/4x3m2oE
Aprendizagem em Foco é uma publicação produzida pelo Instituto Unibanco. Tem como objetivo adensar as discussões sobre o contexto educacional brasileiro, a partir de pesquisas, estudos e experiências nacionais e internacionais.
Para fazer algum comentário, envie um e-mail para: instituto.unibanco@institutounibanco.org.br
Para ler as edições anteriores, acesse: bit.ly/BoletimAprendizagemFoco
Produção editorial: Redação Carmen Nascimento; Edição Antonio Gois e Carolina Fernandes
Projeto gráfico e diagramação Estúdio Kanno; Edição de arte Fernanda Aoki
