ESCOLAS NECESSITAM DE AÇÃO E ADAPTAÇÃO À CRISE CLIMÁTICA

Efeitos da crise climática, equivocadamente entendidos até bem pouco tempo como um problema das futuras gerações, foram vivenciados de forma intensa pelas escolas neste ano.

 

Edição 93 - Novembro de 2023

  • Eventos extremos levaram a suspensão de aulas em todas as regiões do país em 2023.
  • Educação é fundamental para formação de uma cidadania ambiental ativa.
  • Gestores relatam projetos interdisciplinares que aliam teoria e prática.

 

Efeitos da crise climática, equivocadamente entendidos até bem pouco tempo como um problema das futuras gerações, foram vivenciados de forma intensa pelas escolas neste ano. No Sul, aulas foram suspensas por fortes chuvas causadas por um ciclone extratropical.

No Norte, o mesmo aconteceu em municípios afetados pela seca de rios amazônicos. Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste também sofreram os impactos de temperaturas elevadas, mesmo no inverno, provocadas pela onda de calor intenso relacionado ao fenômeno El Niño.

Com sucessivos recordes históricos de temperatura global, o ano de 2023 caminha para ser o mais quente já registrado no planeta, e esses fenômenos climáticos adversos serão cada vez mais recorrentes devido ao aquecimento global provocado pela atividade humana. Diante desse cenário, sistemas educacionais de todo o planeta precisam agir em duas frentes.

Uma delas é a preparação para que o impacto negativo desses eventos seja atenuado no cotidiano escolar. Em outra frente, é preciso mais ênfase na formação de uma cidadania consciente dos desafios ambientais e preparada para agir, no presente e no futuro, de modo a contribuir com os esforços globais de adaptação e mitigação na transição para um modelo econômico ecologicamente sustentável.

É um desafio imenso, mas há alguns elementos que colaboram para esse esforço educacional. Um deles é que os jovens, no mundo todo, demonstram estar mais conscientes com a pauta. Uma pesquisa feita em 2021 pela Universidade de Oxford e Pnud (agência da ONU para o desenvolvimento humano) em 50 países mostrou que, em geral, 64% da população desses países (que representam metade da população do planeta) concordam que estamos enfrentando uma emergência climática. Entre os mais jovens, esse percentual sobe para 69% e, entre os mais velhos, cai a 58%. No Brasil, essas proporções são, respectivamente, de 69% e 51%

No campo de atenuação das consequências de eventos climáticos extremos, é cada vez mais importante que as redes de ensino tenham planos de contingência para apoiar e orientar escolas em situações emergenciais que podem levar à suspensão de aulas ou a um nível de desconforto que prejudica a aprendizagem e realização de atividades físicas. É fundamental também investir na melhoria da infraestrutura. Por exemplo, dados do Censo Escolar mostram que 70% dos estabelecimentos de ensino não possuem climatização. É preciso atenção também com a saúde mental dos estudantes, pois a ansiedade gerada pelos problemas ambientais entre os jovens é um fenômeno já identificado em pesquisas pelo mundo.

No campo de ação, há muito a ser feito também. A educação ambiental não chega a ser uma novidade. No Brasil, ela é lei desde 1999 e constada atual Base Nacional Comum Curricular. Há muita reflexão a ser feita, porém, sobre a forma como sistemas educacionais no mundo todo tratam a temática, que não deve se limitar a uma única disciplina.

“Reimaginar nossos futuros juntos: um novo contrato social para a educação”, Unesco, 2022
 

“A pesquisa sobre a eficácia da educação em mudança climática constata que grande parte dela se concentra exclusivamente na educação científica, sem cultivar toda a amplitude de competências necessárias para envolver os estudantes em ações efetivas”.

Um relatório lançado pela Unesco em 2022 (“Reimaginar nossos futuros juntos: um novo contrato social para a educação”) defende, por exemplo, uma nova abordagem, lembrando que crianças e jovens já exercem significativo protagonismo no movimento climático internacional e que o modelo antigo, baseado na transmissão de conhecimento, é insuficiente para qualificar ainda mais essa cidadania ativa. “A pesquisa sobre a eficácia da educação em mudança climática constata que grande parte dela se concentra exclusivamente na educação científica, sem cultivar toda a amplitude de competências necessárias para envolver os estudantes em ações efetivas”, diz um trecho do documento.

Outro organismo internacional a jogar luz sobre a necessidade de uma nova abordagem para a educação ambiental é a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que divulgou, em novembro de 2023, também um relatório destacando que as mudanças climáticas, em conjunto com as transformações digitais, constituem os dois desafios mais urgentes do século 21.

“Uma chave para construir resiliência face aos desafios ambientais e às transformações tecnológicas é capacitar os indivíduos através de investimentos em competências. Contudo, as competências, por si só, não garantem uma ação significativa. As atitudes e disposições, que são em grande parte moldadas através da educação e da formação, desempenham um papel crucial na motivação dos indivíduos para utilizarem as suas competências para a melhoria da sociedade”, destaca o relatório, advertindo também que jovens socioeconomicamente desfavorecidos se encontram em situação de maior vulnerabilidade nessa transição ambiental e digital, devendo ter, por isso, atenção prioritária na formulação de políticas públicas.

DIRETRIZES PARA O BRASIL

No contexto brasileiro, uma contribuição para a abordagem do tema nas escolas foi publicada em 2023 pelo Fundo Brasileiro de Educação Ambiental.

Realizado a partir de consultas públicas e a especialistas, o documento “Diretrizes de educação climática ambiental” sugere dez eixos a serem trabalhados. Entre eles estão a promoção de metodologias participativas que “engajem múltiplos atores sociais na proteção de suas comunidades com sustentabilidade socioambiental”, a “produção de conhecimentos e ações coletivas pelo bem comum”, no contexto de uma educação cidadã, “capaz de apoiar a tomada de decisões transformadoras a partir do meio ambiente natural ou construído”. O documento também reitera que o enfrentamento da emergência climática “requer justiça climática, priorizando medidas fundamentadas na equidade, inclusão e bem-viver.

Muitas das adaptações e ações sugeridas nesses documentos dependem de políticas públicas mais amplas, que extrapolam a competência dos professores e gestores escolares. No entanto, já existe muito espaço de atuação dentro das escolas no apoio a projetos que conciliem a aprendizagem com ações socioambientais, permitindo aplicar a teoria na prática e desenvolver uma cidadania ativa. O Banco de Soluções do Observatório de Educação traz alguns depoimentos de estudantes, professores e gestores sobre ações bem-sucedidas nessa área.

Profa. Gessela Byanka
da Escola São Luiz, em Santa Maria de Jetibá (ES)
 

“O resultado que mais nos impressionou foi a mudança de postura e de mentalidade dos alunos. Eles passavam pelo rio e não o enxergavam realmente. Hoje enxergam todos os problemas ambientais, sua importância para a comunidade. O projeto fez os alunos se sentirem produtores de conhecimento”.

Uma delas é relatada pela professora de Língua Portuguesa Gessela Byanka e pelas estudantes Luiza Tirola e Ariane Schulz, na época alunas da Escola São Luiz, em Santa Maria de Jetibá (ES). A partir de um projeto interdisciplinar sobre o rio São Luís foram realizadas uma série de intervenções na comunidade ao redor. Um primeiro passo foi a realização de entrevistas com moradores locais sobre problemas ambientais gerados pela degradação do rio, além de recuperar a memória coletiva de sua importância para a região. O conhecimento gerado a partir desse projeto foi divulgado além dos muros da escola, por meio de textos, cartazes, músicas e manifestações artísticas, tendo ganhado espaço também na rádio local.

Outra inciativa que aliou o conhecimento à ação de forma interdisciplinar foi registrada na escola Mário Martins, em Picos (PI), onde, a partir do desenvolvimento de um projeto de reciclagem na escola, os alunos se aprofundaram sobre a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Uma das primeiras ações do projeto foi, após a aprendizagem sobre a forma correta de separação dos resíduos, realizar uma pesquisa de campo, para identificar locais de coleta seletiva próximos à escola.

Também foram feitas caminhas pelo bairro para sensibilizar a comunidade para a importância da reciclagem, além da aplicação de um questionário nas residências vizinhas à escola, para investigação sobre o tratamento que as famílias davam ao lixo doméstico. Nesse momento, os alunos aproveitavam para divulgar os locais de coleta de reciclados. Como resultado, foi possível identificar aumento da conscientização e mudanças nos hábitos tanto dos estudantes quanto de familiares e vizinhos da escola, além da própria aprendizagem gerada pelo projeto.

SAIBA MAIS

Aprendizagem em Foco é uma publicação quinzenal produzida pelo Instituto Unibanco.

Tem como objetivo adensar as discussões sobre o contexto educacional brasileiro, a partir de pesquisas, estudos e experiências nacionais e internacionais.

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