Análise de Imprensa - Março de 2021

Pauta de março tratou do primeiro ano de fechamento das escolas, volta às aulas, políticas educacionais e mais

Em março de 2021, ocorreu a passagem de um ano do primeiro fechamento das escolas no Brasil por causa do novo coronavírus. A análise do clipping do mês mostrou que a pandemia continua comandando a pauta de educação, tendo predominado no conjunto de 240 inserções jornalísticas selecionadas pelo Radar de Imprensa no período. Além da educação na pandemia, merece menção a cobertura de temas variados do ensino médio e de questões ligadas a políticas educacionais, equidade e financiamento da educação.

Alguns veículos lembraram o aniversário de suspensão das aulas presenciais produzindo balanços sobre o ano que passou. “O Brasil tem a maior média de semanas de escolas fechadas do mundo e está sofrendo as consequências de maior impacto da pandemia”, salientou Ítalo Dutra, chefe de educação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef, na sigla em inglês) no Brasil, em grande reportagem publicada pelo G1.

Em setembro do ano passado, um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apontou o Brasil como um dos países que permaneceram mais dias com as escolas fechadas por causa da pandemia. Recentemente, um levantamento realizado com o apoio da Fundação Lemann indicou que, até 2 de fevereiro de 2021, a interrupção das aulas presenciais já se estendia por 267 dias no Brasil.

O texto do G1 trouxe a chamada “Um ano após suspensão de aulas presenciais, estudantes e famílias ainda enfrentam incertezas com reabertura das escolas na pandemia”. Além de representantes de organizações sociais, a matéria ouviu pesquisadores, pais e mães. De São Paulo (SP), Jefferson Rodrigues, pai de Jhullia, de 6 anos, deu um depoimento emblemático do ponto de vista do que o último ano significou para as famílias:

“A gente não tinha noção da dimensão de como seria alfabetizar uma criança em casa. Buscamos atividades na internet, pesquisamos no YouTube como alfabetizar, e fomos ajudando ela. Tanto com as aulas remotas quanto com a dedicação em casa, eu e minha esposa fizemos de tudo para alfabetizá-la. Ela já está lendo – não com tanta fluidez –, mas é motivo de orgulho para nós”.

Uma matéria em O Globo, por sua vez, valeu-se da data para denunciar a falta de apoio aos estudantes em termos de infraestrutura: “Um ano após pandemia forçar EAD, nenhum estado dá equipamentos básicos para ministrar ensino remoto”. A reportagem indicou que nenhum ente federativo comprou equipamentos digitais (tablets, computadores ou celulares) para os alunos acompanharem as aulas remotas durante a pandemia.

Sem aulas presenciais e quase sem conexão

Na coluna “Há um ano as escolas fechavam as portas e fui uma das últimas a sair” (O Estado de S.Paulo), a jornalista e educadora Carolina Delboni fez o retrospecto do que se passou na educação brasileira pela visão de quem atua no ambiente escolar: “A gente pode ter se conformado com a escola dentro de uma tela e as relações resumidas a quadradinhos no Teams, mas entre o que era a escola há um ano e o que é hoje existe um vão – vazio e silencioso”.

Na Folha de S.Paulo, a professora Débora Garofalo assinou um artigo que percorreu raciocínio semelhante e fez uma crítica ao Ministério da Educação (MEC): “Há um ano com aulas mediadas por tecnologia ou distribuição de materiais didáticos, podemos destacar que a educação brasileira está solitária. Assistimos à inércia do MEC e à ausência de orientações para aulas no formato híbrido, além da falta de ações para o retorno presencial seguro e o fomento a políticas públicas, como o investimento em programas como o Educação Conectada”.

O assunto do retorno presencial seguro e do abre-fecha das escolas, por seu turno, destacou-se em mais de 20% das inserções totais tabuladas. Os ganchos principais eram ora o balanço de um ano sem escolas, ora o recrudescimento do contágio, ora as novas medidas restritivas adotadas pelos estados para aumentar o isolamento social. A relação a seguir ilustra as abordagens da cobertura ao longo do mês:

Políticas públicas educacionais

O tema da conectividade foi tratado na imprensa no âmbito do fechamento das escolas – como em  “Internet e infraestrutura são maiores entraves para volta às aulas nos municípios”, na Folha de S.Paulo –, mas também das políticas públicas educacionais. Nesta direção, na amostra do Radar de Imprensa, o fato jornalístico principal foi o veto do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ao Projeto de Lei 3.477/2020. A iniciativa prevê o fornecimento gratuito de internet, com fins educacionais, a alunos em situação de vulnerabilidade social e a professores da educação básica pública.

O veto presidencial ao PL 3.477/2020 foi repercutido pelo UOL, Folha de S.Paulo, O Globo, Agência Brasil, RBA – Rede Brasil Atual,  G1 e também por O Estado de S.Paulo, que escreveu em editorial:

“As consequências do veto de Bolsonaro são trágicas, uma vez que penalizam estudantes das famílias mais pobres. Como não têm acesso à internet e as aulas presenciais estão suspensas, eles não podem se beneficiar das aulas virtuais, o que comprometerá sua aprendizagem. Com isso, em vez de uma educação pública de qualidade e com equidade, como é dever do governo federal, o que se terá é o aumento da disparidade de capital humano nas próximas gerações, aprofundando ainda mais as desigualdades sociais”.

Outras notícias relevantes para as políticas públicas educacionais que estiveram na mira da imprensa foram a nomeação da professora Sandra Ramos, reconhecida pela postura crítica à chamada “ideologia de gênero”, como coordenadora geral de materiais didáticos do MEC; e o avanço do projeto que defende o ensino domiciliar (ou “homeschooling”) na Câmara dos Deputados. Uma análise publicada pela revista Veja no fim do mês deu o tom ao que se viu na cobertura sobre atos do MEC e da bancada governista no Congresso Nacional: “Bolsonaro marcha firme para impor agenda ideológica no ensino”.

Equidade e financiamento da educação

Em um país com reconhecido grau de desigualdade social como o Brasil, é esperado que o tema da equidade se apresente no clipping da educação – em primeiro plano ou de forma subjacente. A cobertura sobre educação na pandemia, por exemplo, percorre o assunto invariavelmente, ao mesmo tempo que se mantém vivo o interesse dos jornalistas em refletir sobre vertentes mais conhecidas da desigualdade. A amostra de clippings de março trouxe de tudo um pouco:

Na retranca do financiamento da educação, três pautas sobressaíram, por sua relevância, na cobertura de março: a ameaça que a negociação da nova rodada de auxílio emergencial para a população mais atingida pela pandemia impôs sobre o orçamento da pasta da Educação; a assinatura da regulamentação do novo Fundo de Desenvolvimento e Manutenção da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) pelo presidente Bolsonaro; e os erros, por parte do governo federal, na transferência de recursos do Fundeb aos estados e municípios em janeiro.

Um apanhado sobre ensino médio

Ainda no vácuo da realização da edição 2020 do Enem, o Exame Nacional do Ensino Médio, as inserções sobre ensino médio voltaram-se, em grande medida, para os desdobramentos da prova.

No início do mês, houve um conjunto de matérias dedicado ao debate sobre questões, gabaritos e sobre a reaplicação do teste em localidades ou para candidatos prejudicados pela pandemia. Também foi noticiada a nomeação, pelo MEC, do coronel da Força Aérea Brasileira Alexandre Gomes da Silva para chefiar a diretoria responsável pelo Enem no Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Nos últimos dias de março, uma nova rodada de matérias enfocou a divulgação dos resultados da avaliação.

Outros tópicos tratados foram a consulta de vagas do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) para o ensino superior, informações para candidatos aprovados na lista de espera de bolsistas do Programa Universidade para Todos (Prouni) e a convocação de estudantes de graduação na lista de espera do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).

São dignas de nota, ainda, as matérias que ampliaram e aprofundaram o olhar sobre a juventude, debruçando-se sobre seus atuais desafios (aqui) e possibilidades (aqui, aqui e aqui).

Porta-vozes presentes e ausentes

Por fim, esta análise aferiu que 62,9% dos clippings reproduzidos pelo Radar de Imprensa em março contaram com a participação expressa de ao menos um porta-voz. O perfil mais ouvido pela imprensa foi o do gestor público/representante do Poder Executivo nas diferentes esferas (federal, estadual e municipal). Tais entrevistados marcaram presença em 43% das 240 inserções tabuladas.

Especialmente nos textos dedicados às políticas públicas educacionais, o ranking das fontes mais ouvidas mostrou empate entre o presidente Jair Bolsonaro, o ministro Milton Ribeiro, do MEC, e o movimento Todos pela Educação, representado pela presidente-executiva, Priscila Cruz, e Lucas Hoogerbrugge, gerente de estratégia política na organização.

Vale registrar que, no estrato de 31 clippings sobre políticas públicas educacionais tabulados pelo Radar de Imprensa, seis matérias indicaram que a reportagem acionou o MEC para consulta, mas não obteve retorno.