Gestão

Crise climática exige que escolas se adaptem para não prejudicar aprendizagem

Os efeitos da crise climática têm se tornado evidentes em várias áreas nos últimos anos. Na educação, os eventos extremos do clima já começaram a impactar a aprendizagem dos estudantes, seja por interromper as aulas e impedi-los de ir à escola, como aconteceu com as enchentes do Rio Grande do Sul em 2024 (1), seja por falta de infraestrutura nos estabelecimentos de ensino para oferecer um ambiente adequado à convivência e ao aprendizado.

Dados do Censo Escolar 2023 tabulados pelo Observatório de Educação do Instituto Unibanco demonstraram, por exemplo, que existe carência de infraestrutura importante no sistema escolar brasileiro quando se trata de quadras de esportes, pátios escolares e climatização das salas de aula.

“Nas regiões Norte e Nordeste do país, as altas temperaturas sempre foram uma realidade. Agora, diante do aumento da frequência de ondas de calor extremo, outras regiões estão se ressentindo de não terem salas de aula com ar-condicionado, quadras cobertas e pátios protegidos. Isso não é mais um luxo e os governos brasileiros precisam agir rapidamente sobre esse e outros efeitos da crise climática”, alerta Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco.

Conheça a dimensão dos desafios enfrentados e suas implicações.

Quadras de esportes

Entre as escolas de educação básica brasileiras, mais da metade não dispõe de quadras de esportes cobertas, índice que é ainda maior quando a análise recai sobre o grupo das escolas públicas (estaduais e municipais).


Fonte: Dados do Censo Escolar 2023 tabulados pelo Observatório de Educação do Instituto Unibanco; 173.734 escolas observadas.

As quadras de esportes cobertas oferecem proteção contra as chuvas intensas e as altas temperaturas, viabilizando a realização das atividades de educação física e prevenindo insolação, desidratação e outros problemas de saúde decorrentes da exposição dos alunos ao sol forte. Sem a cobertura, muitas escolas brasileiras têm suspendido as aulas de educação física durante as ondas de calor (2).

Destaques:

  • 51% do total de escolas de educação básica brasileiras não possuem quadras cobertas.
  • Entre as escolas públicas, 54% dos estabelecimentos de ensino não contam com quadras cobertas.
  • Das 27 unidades federativas brasileiras, apenas 12 têm ao menos 50% da rede pública com quadra coberta (Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Rondônia, Roraima, Santa Catarina e São Paulo).
  • Nenhum dos nove estados do Nordeste têm ao menos 50% da rede pública com quadra coberta.
  • Dos sete estados da região Norte, somente dois (Rondônia e Roraima) oferecem quadra coberta em pelo menos metade das escolas públicas.

 

Pátios escolares

No contexto do Censo Escolar, os pátios escolares são definidos como espaços cercados por elementos da construção das escolas, com área que permite a realização de atividades recreativas e extraclasses. Eles são locais de convivência propícios ao desenvolvimento de habilidades sociais e se prestam à realização de práticas pedagógicas diversas, eventos culturais e para reunir a comunidade escolar. A cobertura dos pátios é fundamental para prover um ambiente seguro, sombreado e com um mínimo de conforto térmico aos frequentadores.

A tabulação do Observatório de Educação apontou a existência de pátios cobertos em 67% das escolas de educação básica brasileiras em 2023. Nas escolas públicas, porém, a ocorrência caiu para 64%. O fato de mais de um terço dos estabelecimentos de ensino da rede pública não contar com pátios cobertos é um dado preocupante e merece atenção das políticas públicas educacionais.

Fonte: Dados do Censo Escolar 2023 tabulados pelo Observatório de Educação do Instituto Unibanco; 173.734 escolas observadas.


Vale lembrar que, de acordo com o Censo Escolar 2023 (3), o Brasil registrou aproximadamente 47,3 milhões de matrículas na educação básica naquele ano. Desse total, cerca de 37,9 milhões de alunos estavam matriculados na rede pública, ou seja, aproximadamente 80% do total de matrículas.


Destaques:

  • 67% do total de escolas de educação básica brasileiras contam com pátios cobertos.
  • Entre as escolas públicas, 64% dos estabelecimentos de ensino possuem pátios cobertos e 36% não possuem.
  • Das 27 unidades federativas, 13 estão acima da média nacional (67%) no percentual de escolas públicas com pátio coberto (Alagoas, Amapá, Ceará, Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso do Sul, Paraná, Piauí, Rio de Janeiro, Rondônia, Roraima, São Paulo e Sergipe).
  • Três estados ainda têm menos da metade das escolas públicas com pátio coberto (Acre, Amazonas e Rio Grande do Sul).
  • Apenas num único estado da federação (São Paulo) o percentual de escolas públicas com pátios cobertos (87%) é superior à média nacional de 67% e também à média do próprio estado (84%).

 

Climatização das salas de aula

Nos primeiros três meses de 2025, o Brasil enfrentou cinco ondas de calor (4) que resultaram em recordes históricos de temperatura. No início de fevereiro, a cidade de Quaraí (RS), por exemplo, registrou em seus termômetros 43,8°C, a maior temperatura já documentada no estado desde o início das medições em 1910, com sensação térmica próxima a 50oC (5). Como consequência do calorão, a Justiça gaúcha chegou a adiar o início das aulas na rede estadual do Rio Grande do Sul (6).

Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), uma onda de calor é um fenômeno climático caracterizado como um período em que o excesso de calor se acumula ao longo de uma sequência de dias e noites excepcionalmente quentes. Embora sejam um fenômeno natural, as ondas de calor têm aumentado de frequência, intensidade e duração por causa do aquecimento global (7).

O uso de ar-condicionado nas salas de aula é um recurso que mitiga os efeitos de eventos como esses, viabilizando ou apoiando a frequência à escola e evitando impactos na capacidade de concentração, memória e aprendizagem dos estudantes, conforme evidências colhidas por estudos nacionais e internacionais (8, 9, 10). Entretanto, em termos de climatização, a infraestrutura nos ambientes escolares internos ainda é bastante deficitária no Brasil mesmo nas regiões mais quentes, como confirmou o levantamento do Observatório de Educação.

Das 27 unidades federativas, 14 oferecem salas de aula climatizadas em mais da metade das escolas, sendo seis estados no Norte do Brasil (Acre, Amapá, Amazonas, Rondônia, Roraima e Tocantins), três no Centro-Oeste (Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul), três no Nordeste (Alagoas, Piauí e Rio Grande do Norte), um no Sudeste (Rio de Janeiro) e um no Sul (Santa Catarina). As outras 13 unidades federativas estão abaixo dos 50% de cobertura.

O balanço revela que somente 12 unidades federativas têm salas de aula climatizadas em mais da metade das escolas estaduais (Acre, Alagoas, Amaá, Amazonas, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Rondônia, Roraima e Tocantins).

Destaques:

  • Rondônia é a unidade federativa com a maior proporção de escolas que possuem salas de aula com equipamentos em funcionamento para manter a temperatura adequada (o índice de 94% vale tanto para o total de escolas de educação básica quanto para o segmento das escolas estaduais).
  • Dos sete estados da Região Norte, tradicionalmente a mais quente do país, apenas no Pará a proporção de escolas com salas de aula climatizadas é inferior à metade (47%).
  • No Nordeste, que é outra região de calor forte, vários estados ainda dispõem de salas de aula climatizadas em menos da metade das escolas: Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco e Sergipe.
  • Embora seja o estado com maior participação no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro (11), São Paulo tem a menor proporção de escolas com salas de aula climatizadas do país (9% para o total de escolas e 2% para as escolas estaduais).

 

O Instituto Unibanco tem se debruçado sobre os efeitos negativos da crise climática na educação desde 2023, quando realizou o seminário “Educação na era das transições”, com uma mesa dedicada ao tema da emergência ambiental. Mais recentemente, o Instituto tem apoiado o projeto Escolas Resilientes, em parceria com o governo do Rio Grande do Sul. O projeto é uma resposta às enchentes de 2024, que destruíram parte das escolas gaúchas e deixaram milhares de estudantes sem aula. A iniciativa é um exemplo de como as redes públicas de Educação podem se preparar para eventos climáticos extremos.

Leia mais sobre crise climática e educação no link https://www.institutounibanco.org.br/?s=emerg%C3%AAncia+clim%C3%A1tica

 

Referências

(1) “Enchentes no RS deixam mais de 381 mil estudantes sem aulas” (CNN Brasil, 27/05/2024).

(2) “Onda de calor faz escolas suspenderem educação física e mudarem cardápio” (O Estado de S.Paulo, 14/11/2023).

(3) Censo Escolar da Educação Básica 2023 – Resumo técnico (MEC/Inep, 2024).

(4) “Regiões metropolitanas de Porto Alegre, Curitiba e de São Paulo enfrentam nova onda de calor” (Climatempo, 25/02/2025)

(5) “Cidade mais quente do Brasil tem busca por sombra e calçadas vazias para evitar calor escaldante” (G1, 10/02/2025).

(6) “Calor leva Justiça a adiar início das aulas no Rio Grande do Sul” (Agência Brasil, 10/02/2025.

(7) Leia mais sobre ondas de calor no site da World Meteorological Organization.

(8) “Mais dias quentes podem prejudicar rendimento escolar de crianças brasileiras” (Folha de S.Paulo, 19/11/2023).

(9) “O calor extremo afeta o desenvolvimento e a saúde na primeira infância” (Center on the Developing Child de Harvard, 2024).

(10) “Reduced cognitive function during a heat wave among residents of non-air-conditioned buildings: An observational study of young adults in the summer of 2016”. (Cedeño Laurent JG, Williams A, Oulhote Y, Zanobetti A, Allen JG, Spengler JD, 2018).

(11) “Em 2022, PIB cresce em 24 unidades da federação” (Agência IBGE Notícias, 14/11/2024).