A importância da merenda escolar é particularmente sentida pelos gestores de escolas públicas situadas em territórios mais vulneráveis. No CETI Hesíchia de Sousa Brito, situado no município de Piracuruca (PI), o diretor José Idelson Escorcio conta que procura oferecer refeições reforçadas por conta do perfil dos estudantes atendidos pela unidade, que, além da sede, conta com dois anexos, um a 35 km da cidade e outro, a 45 km.
SEGURANÇA ALIMENTAR É TAMBÉM AÇÃO DAS ESCOLAS
“Não deixe ninguém para trás” foi o tema escolhido pelas Nações Unidas para marcar as celebrações em torno do Dia Mundial da Alimentação, comemorado em 16 de outubro.
Boletim 83 - Outubro de 2022
“Temos alunos que saem 5h30 da manhã para chegar à escola às 7h, porque pegam duas conduções, na zona rural, para chegar até a sede da escola ou mesmo até o anexo. Os alunos que estudam à tarde às vezes saem de casa às 10h30 da manhã para chegar à escola às 13h30”, relata. “Nós priorizamos uma alimentação mais forte, mais nutritiva, porque entendemos que com fome ninguém aprende. Servimos farofa de cuscuz com ovos, a sopa de frango, frango com arroz, cuscuz com leite, salada verde, frutas na sobremesa ou suco de acerola, goiaba, caju, que são regionais”, afirma.
Hora da merenda no CETI Hesíchia de Sousa Brito, em Piracuruca (PI)
Ele explica ainda que como gestor tem autonomia para montar o cardápio seguindo as orientações da nutricionista da Secretaria e em conformidade com as diretrizes do FNDE, de modo a atender à realidade local. Uma das adequações feitas, conta José Idelson, foi a inclusão de um café da manhã no cardápio (que não consta entre as refeições que devem ser servidas pela escola), porque percebeu que muitos alunos trabalham no campo antes de ir para escola e chegam lá sem essa alimentação.
Na EE Dom Pedro II, situada na região central de Belo Horizonte (MG), o cuidado com a alimentação escolar é o mesmo, mas o perfil do alunado atendido é distinto. A gestora Flavia Cristina Fernandes Araujo relata que os estudantes vêm de famílias com poder aquisitivo relativamente maior que aqueles que frequentam escolas periféricas. Durante a pandemia, por exemplo, lembra que não houve adesão total aos kits alimentares distribuídos aos alunos. Em relação à merenda, ela afirma que tem uma ótima aceitação, mas não é consumida pela totalidade do corpo discente: cerca de 300 dos 420 estudantes matriculados por turno fazem a refeição diariamente. “É uma refeição completa: tem arroz ou macarrão, feijão, uma proteína, salada. Tem alunos que não dão conta de receber essa alimentação às 9h30 da manhã”.
Com isso, a escola tem conseguido seguir oferecendo refeições de qualidade, apesar do baixo valor repassado no âmbito do Pnae. “É um valor muito baixo principalmente diante do cenário de aumento de preços que estamos vendo todos os dias. Isso me preocupa. No futuro não sei como será. Em termos de qualidade do preparo sabemos que isso não vai cair, mas a gente não sabe da diversidade dos pratos que serão oferecidos”.
Assim como no Piauí, na rede estadual mineira os gestores têm autonomia para construção do cardápio. As escolas são agrupadas em polos, cujos gestores definem conjuntamente os cardápios, em conformidade com as orientações da nutricionista da Secretaria e as normas do Pnae (grupos alimentares, composição, quantidade) e a partir das preferências alimentares identificadas entre os alunos e atendendo à cultura regional e sazonalidade da produção local. Após essa etapa, é aberta a licitação para aquisição dos alimentos.
“Temos a maior preocupação em usar alimentos saudáveis e adquiridos da agricultura familiar, porque a gente sabe da procedência e conhece os dias certos da entrega desses produtos”, enfatiza a diretora Arlete Vasconcelos Santos, da EE Santo Afonso, situada também na capital mineira. Ela explica, por exemplo, que os bolos são feitos na própria cantina da escola, assim como os sucos, com a polpa de fruta adquirida dos produtores locais. “Muitos alunos não tinham o hábito de consumir fruta em casa. Também introduzimos o peixe e deu muito certo”, conta.
Os depoimentos dos diretores acima dão uma mostra do cuidado que eles dedicam à merenda servida e reforçam a importância do papel desempenhado pela escola pública na garantia do direito à segurança alimentar e nutricional dos estudantes.
Aprendizagem em Foco é uma publicação quinzenal produzida pelo Instituto Unibanco.
Tem como objetivo adensar as discussões sobre o contexto educacional brasileiro, a partir de pesquisas, estudos e experiências nacionais e internacionais.
PRODUÇÃO EDITORIAL
Redação: Fabiana Hiromi
Edição: Antônio Gois
Projeto gráfico e diagramação: Estúdio Kanno
Edição de arte: Fernanda Aoki