EMERGÊNCIA CLIMÁTICA EXIGE AÇÃO DAS ESCOLAS
O combate às mudanças climáticas, antes tido como um assunto distante para maior parte da população, está cada vez mais no centro das atenções.
Boletim 70 - Outubro de 2021
No Brasil, a educação ambiental está prevista em uma série de normativas, como as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Ambiental (2012) e, mais recentemente, a Base Nacional Comum Curricular, onde figura entre as competências gerais – conforme abordamos nessa edição do boletim Aprendizagem em Foco.
Porém, na prática, o debate sobre o tema ainda é incipiente nas escolas. É o que parece apontar a pesquisa “Reimagining – educação climática e liderança jovem” (julho/2021), divulgada pela Plan International no último mês de julho. Mais de 1.800 adolescentes e jovens de 37 países com idades entre 15 e 24 anos foram ouvidos. A maioria (81%) apontou a escola como principal fonte de aprendizado sobre mudanças climáticas, à frente das redes sociais (69%) e da internet (57%). Porém, um em cada cinco adolescentes classificou a educação sobre o tema como “precária” ou “muito precária”. A maioria (86%) considerou as informações que recebe sobre o assunto como insuficientes ou muito genéricas e não aplicáveis à sua realidade (49%). A despeito da desinformação, 98% declararam estar preocupados com a emergência climática e só 11% foram ensinados a participar dos processos de tomada de decisão.
Uma mobilização realizada em agosto deste ano também confirma o interesse e a demanda juvenil por essa temática. No Dia Internacional da Juventude (12 de agosto), 12 jovens de 16 a 24 anos, representando 8 estados brasileiros (CE, MS, PA, PE, PB, RJ, SP, RS), lançaram o Manifesto Jovens pela Educação Climática – Por uma Educação Climática no Ensino Básico Brasileiro. A iniciativa é uma parceria entre o Fridays for Future e o Climate Reality Project Brasil (braço da organização global fundada em 2006 pelo ex vice-presidente dos EUA Al Gore).
“A gente demanda que a educação climática e socioambiental seja implementada em todos os institutos de educação básica do Brasil. Com isso, a gente quer dizer que já deu de a gente só falar de pequenas ações individuais e que tem uma calota de gelo derretendo... não dá mais só para falar em ‘repensar, reutilizar, reciclar’. Tá na hora de a gente ter uma mudança de estrutura, de sistema”.
“Temos esperança no poder transformador da educação. Ela é capaz de engajar, mudar, conectar e transformar jovens agentes do presente, que irão garantir um futuro saudável para a humanidade e todos os outros seres que convivem conosco neste planeta. Chamamos, então, toda a sociedade, a juventude, escolas, professores e coordenadores, a ocuparem papéis ativos contra as mudanças climáticas e lutarem por uma educação que revolucione.”
“Eles próprios fizeram a coleta de dados, a montagem dos gráficos e depois as análises. Em duas, três aulas, aprenderam o que às vezes levariam dois, três meses. A comunidade viu que a nossa escola está viva. O que o aluno aprende aqui, ele está levando para fora. Sem contar que muitos desses alunos são produtores rurais, são o futuro. Eles aprenderam a usar os equipamentos de proteção e os agrotóxicos de forma correta e respeitando o meio ambiente. Com certeza nós teremos um futuro muito melhor na nossa comunidade”.
Clique aqui para assistir ao depoimento completo do prof. Alexandre.
Em Marabá (PA), a realização de uma feira do conhecimento com a temática ambiental, com o objetivo de promover a integração dos alunos das diferentes modalidades existentes na escola, alcançou resultados muito além dos esperados. Frente ao desafio de propor soluções para problemas ambientais identificados na escola e na comunidade, os estudantes implantaram um viveiro de mudas, horta, uma caixa d’água ecológica, um sistema de aquoponia e até produção de biogás. Um grupo realizou uma campanha dentro da feira para eliminar o uso dos canudos de plástico, mostrando os efeitos negativos desse produto no meio ambiente, mas foi além. Como proposta para substituir o item, desenvolveu um canudo de bambu, material abundante na região.
Para o professor de História Rafael Felix da Silva, da E.E.E.M. Doutor Gabriel Sales Pimenta, a iniciativa da feira foi um marco para a escola, já que ela “não acabou ali”. “[A feira] persiste porque os alunos precisam cuidar e continuar tendo essas práticas socioambientais”.
Além disso, o espírito “investigador”, o prazer do aprendizado e o olhar para a realidade local despertados nos alunos pela experiência contribuíram para a melhoria do desempenho e rendimento escolar deles. “Tenho alunos da noite tímidos e que agora são verdadeiros cientistas, produtores de conhecimento e protagonistas dentro da escola, testando, experimentando algo novo e eu acompanhando emocionado todo o processo de ver eles cuidando e zelando daquilo que é deles e propondo algo novo para a comunidade, para a escola”, relata o docente. (Clique aqui para assistir ao depoimento completo do prof. Rafael).
Essas experiências mostram que, além da conscientização para os efeitos do aquecimento global, muito pode ser feito para aliar o conhecimento à ação concreta em defesa do meio ambiente.
SAIBA MAIS:
Aprendizagem em Foco é uma publicação quinzenal produzida pelo Instituto Unibanco.
Tem como objetivo adensar as discussões sobre o contexto educacional brasileiro, a partir de pesquisas, estudos e experiências nacionais e internacionais.
PRODUÇÃO EDITORIAL
Redação: Fabiana Hiromi
Edição: Antônio Gois
Projeto gráfico e diagramação: Estúdio Kanno
Edição de arte: Fernanda Aoki