Como identificar os alunos que mais precisam de recomposição da aprendizagem

Boletim Aprendizagem em Foco - ed.111 | Junho 2026

Avaliação diagnóstica é ponto de partida para mapear lacunas e grupos prioritários

Monitoramento contínuo combina avaliações, análise de frequência e escuta ativa 

Tutoria e monitoria contribuem para acompanhar de perto e motivar os jovens

As políticas de recomposição das aprendizagens, que ganharam relevância durante a pandemia, vêm sendo incorporadas de forma permanente pelas redes de ensino. A experiência mostra que sempre haverá situações que exigirão recomposição e que integrar essa metodologia como eixo fixo das políticas educacionais facilita intervir de maneira mais ágil e eficaz. Nesse contexto, um ponto central é a capacidade de identificar quais estudantes precisam de apoio adicional e quais conteúdos devem ser priorizados para eles.

A avaliação diagnóstica é o ponto de partida para compreender as necessidades dos estudantes e orientar o planejamento pedagógico. De acordo com o Guia de Avaliação e Mediações para Recomposição das Aprendizagens, publicado pelo Ministério da Educação (MEC) em 2025, ela permite identificar ficar conhecimentos prévios e lacunas, oferecendo uma base concreta para definir prioridades.

 

É o que acontece na rede estadual do Espírito Santo. Segundo Tiago Guerçon da Silva, responsável pela Superintendência Regional de Educação (SRE) de Carapina _ que engloba as cidades de Vitória, Serra, Santa Teresa e Fundão) a avaliação diagnóstica é fundamental permite que cada escola inicie o ano já ciente das necessidades de suas turmas. Além da avaliação oficial da rede, os professores têm autonomia para aplicar seus próprios instrumentos diagnósticos, desde que alinhados às diretrizes gerais da Secretaria de Educação. Os resultados subsidiam o planejamento e a elaboração de planos de intervenção vinculados ao Programa de Fortalecimento da Aprendizagem (PFA), iniciativa da rede que abrange estudantes do 2º ano do fundamental até o 3º ano do médio.

Essa autonomia também existe em outras redes. No Centro de Ensino em Período Integral (CEPI) Aécio Oliveira de Andrade, de Goiânia (GO), por exemplo, a gestora Eliane Cristina Luiz Sobrinho inicia o ano letivo fazendo uma sondagem com os novos alunos que chegam à unidade escolar antes da realização da avaliação diagnóstica da Secretaria. “Eu separo por níveis e converso individualmente com cada estudante para entender leitura, escrita e até questões pessoais”, afirma. O mesmo procedimento é realizado pelos outros professores da escola. Segundo ela, esse contato direto revela nuances que não aparecem em instrumentos padronizados. “Muitos alunos chegam com baixa autoestima e vulnerabilidades familiares. Então, esse olhar individualizado é essencial para compreender o que está por trás das dificuldades de aprendizagem”, revela. Com base na análise dessas avaliações, a escola desenvolve o projeto de recomposição de aprendizagens para cada turma.

A CEPI Ana Maria Ferreira de Paula, de Planaltina (GO), também inicia o ano com uma avaliação diagnóstica própria, aplicada na primeira semana de aula, seguida do Sistema de Avaliação Educacional do Estado de Goiás (SAEGO). “A partir desses resultados, em conjunto com os professores, desenvolvemos atividades próprias para que nós consigamos avançar nos descritores que estão mais defasados”, conta Izabel Cristina Chagas Marchão, gestora da escola. Adriano Gomes Moraes, professor de Matemática e coordenador da área de Exatas, explica que, após a análise, os professores criam um banco de atividades para auxiliar os estudantes com mais dificuldades. “Em alguns casos precisamos simplificar ao máximo para que eles consigam entender o que a gente está tentando passar,”, diz.

 

“A partir desses resultados, em conjunto com os professores, desenvolvemos atividades próprias para que nós consigamos avançar nos descritores que estão mais defasados” 

 

Izabel Cristina Chagas Marchão, gestora da CEPI Ana Maria Ferreira de Paula, de Planaltina (GO)

 

ACOMPANHAMENTO CONSTANTE

Para garantir que nenhum estudante fique para trás ao longo do percurso, as redes fazem um monitoramento contínuo dos resultados das aprendizagens. No Espírito Santo, um dos instrumentos utilizados é a Avaliação de Monitoramento da Aprendizagem (AMA), aplicada a cada trimestre. Além disso, as superintendências regionais de educação realizam observações de aula, para analisar como o professor faz o planejamento para atender grupos distintos, organiza estratégias diferenciadas, dá feedback e dialoga com os estudantes. “Esse acompanhamento permite verificar se o planejamento está coerente com as necessidades apontadas pelas avaliações”, afirma Tiago Guerçon da Silva.

Na rede estadual do Piauí, o monitoramento é feito por meio da aplicação de testes mensais, analisados pela plataforma iSEDUC, e do Sistema de Avaliação Educacional do Piauí (SAEPI). “Os resultados dessas avaliações orientam as formações semanais que oferecemos aos professores de Língua Portuguesa e Matemática e a produção de materiais didáticos personalizados”, conta Regina Célia Barbosa Monteiro Lopes, Diretora de Ensino e Aprendizagem da Secretaria de Educação do Piauí (Seduc). “O acompanhamento é reforçado ainda por visitas quinzenais dos técnicos das gerências regionais às escolas, seguindo um roteiro de observação que inclui notas, frequência e andamento das aulas”, completa.

No Centro Estadual de Tempo Integral (CETI) Professor Antônio Tarcísio Pereira e Silva, em Teresina (PI), o processo de acompanhamento vai além desses instrumentos. A gestora Maria José Viana da Silva conta que a escola realiza ainda a busca ativa sempre que um aluno falta dois ou três dias consecutivos, acionando família e, quando necessário, os órgãos competentes. Para lidar com essas questões, a escola mantém um projeto estruturado de escuta, chamado “Fala que eu te escuto, fala que eu te acolho”, conduzido por uma equipe de mediação de conflitos. Todos os alunos passam por conversas individuais, registradas em fichas restritas. “Nós vemos o aluno como um todo. Às vezes é preciso buscar uma equipe multidisciplinar para que a gente possa fazer uma intervenção em relação a ele”, afirma.

As escolas têm investido também em estratégias de tutoria e monitoria para acompanhar de perto os estudantes, em que os próprios alunos escolhem seus tutores  e monitores, fortalecendo seu envolvimento. A atuação de professores (como tutores) e estudantes (como monitores) permite identificar rapidamente quando um aluno perde o ritmo ou apresenta sinais de dificuldade e fazer intervenções ajustadas às necessidades de cada turma. Segundo a gestora Izabel Cristina Chagas Marchão, de Planaltina (GO), mesmo estudantes que chegam arredios, às vezes expulsos de outras escolas, sentem-se depois pertencentes à escola. “O tutor conversa individualmente, e eles percebem que a escola se importa”, conta. 

No Piauí, os monitores contam com um apoio extra, o programa estadual Oportunidade Jovem, que oferece bolsas para estudantes com bom desempenho atuarem no apoio pedagógico. “Esse trabalho tem sido muito importante, ajuda muito a escola em todo o processo de ensino-aprendizagem e também na recomposição”, afirma Maria José Viana da Silva. Essas experiências mostram que a identificação dos estudantes que precisam de recomposição não depende apenas de avaliações, mas de um conjunto de práticas articuladas: análise de dados, observação cotidiana, escuta ativa, acompanhamento da frequência, tutoria, monitoria e, principalmente, um diálogo constante entre professores, gestores e equipes regionais.

 

Boas Práticas para Recomposição das Aprendizagens: Experiências de Estados e Municípios do Brasil. MEC, 2025. bit.ly/4nR3Vih

Lições da Recomposição das Aprendizagens. Boletim Aprendizagem em Foco/Instituto Unibanco, 2025. bit.ly/4nOlIqp

Guia de Avaliação e Mediações para Recomposição das Aprendizagens. MEC, 2025. bit.ly/4dKSX9s

Guia para Implementação da Recomposição das Aprendizagens. MEC, 2024: bit.ly/4nT1iwf

Recomposição de Aprendizagens: Lições Internacionais. Boletim Aprendizagem em Foco/Instituto Unibanco, 2025. bit.ly/42WCRVg

Aprendizagem em Foco é uma publicação produzida pelo Instituto Unibanco. Tem como objetivo adensar as discussões sobre o contexto educacional brasileiro, a partir de pesquisas, estudos e experiências nacionais e internacionais.

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Produção editorial: Redação Antonio Gois; Edição Antonio Gois e Carolina Fernandes
Projeto gráfico e diagramação Estúdio Kanno; Edição de arte Fernanda Aoki