Além da transformação no perfil dos estudantes, outra mudança – positiva – na escola pública foi a melhoria na infraestrutura das unidades, ainda que persistam muitas deficiências nesse sentido. Marlene Lima da Silva, atual responsável pela 19ª Gerência Regional de Ensino da Secretaria Estadual de Educação do Piauí, relata que cursou os primeiros anos da educação básica em uma escola rural de Água Branca, município localizado a 90 km de Teresina. Ela conta que tábuas improvisadas sobre pedras faziam as vezes de carteira. A escola, fundada pelo seu avô, existe até hoje, foi totalmente reformada e é climatizada.
Ao longo de sua trajetória de 42 anos na educação pública do Piauí, Marlene pôde acompanhar de perto as transformações, superações e dificuldades pela qual a rede passou ao longo do período. Ela destaca a continuidade das políticas educacionais nas últimas duas décadas como um aspecto central para paulatina melhoria dos índices do estado. “De 2003 para cá o estado vem mantendo uma política de rede. A gente saiu de um patamar de ficar discutindo só infraestrutura para um enfoque pedagógico, do ensino-aprendizagem”, observa.
Licenciada em Letras, Marlene tem experiência na gestão desde os anos 90, quando assumiu a direção da Escola Martins Napoleão, onde permaneceu por 13 anos e cujo trabalho foi reconhecido interna e externamente por meio de premiações como a de referência em Gestão Escolar em 2001. “Educação é foco, é ação, é planejamento, é avaliação”, lista.
Da escola saiu direto para a equipe de gestão da Secretaria de Educação, em 2003, onde participou das ações de planejamento voltadas à universalização do acesso ao Ensino Médio no estado: estudos de demanda, mapeamento das escolas, organização do transporte dos estudantes, realização de concurso para contratação de professores, formação de gestores e coordenadores pedagógicos.
Sobre os desafios atuais, assim como o gestor mineiro, ela destaca que “a questão das desigualdades é a que mais me preocupa”. Ela explica que a 19ª GRE abarca 43 escolas, situadas em localidades de difícil acesso na zona sul de Teresina e marcadas pela desigualdade social. A gestora destaca o esforço de busca ativa que a Secretaria vem empreendendo para conter a evasão nesse período pós-pandemia, bem como o acolhimento dos estudantes e profissionais nas escolas.
Para Marlene, a presença de equipes multissetoriais nas regionais, compostas por psicólogos e assistentes sociais, é outro avanço importante na política educacional do estado – um reconhecimento da necessidade de a escola ter um olhar integral sobre as necessidades e o bem-estar dos estudantes.
Avanços recentes não significam que a educação pública brasileira chegou próxima ao patamar que se espera. Porém, refletir a respeito do que fomos até recentemente, sobre a situação em que estamos agora e, principalmente, sobre o país que queremos ser nos próximos anos é uma tarefa de toda a sociedade. E essas reflexões podem e devem ocorrer também no âmbito da escola, para que toda a equipe esteja mais consciente e preparada para lidar com um perfil mais diversificado de alunos que a cada ano chega aos anos finais da educação básica.