Educação
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Por Pâmela Dias — Rio de Janeiro

Desde que iniciou a carreira, há 20 anos, a professora de língua portuguesa da rede estadual da Paraíba Patrícia Rosas, de 39 anos, se desdobra em dois turnos de trabalho para garantir a renda mensal. Entre 2009 e 2019, ela precisou percorrer quase 30 quilômetros entre os municípios de Campina Grande e Pocinhos para faturar um salário que não chegava a R$ 5 mil. Hoje, apesar de ter sido aprovada em concursos para atuar na mesma escola, ela ainda leva uma jornada dupla de 60 horas em um colégio que está sem local fixo devido ao risco de desmoronamento.

— A carga horária do professor não é só sala de aula, temos que trabalhar além do horário para, no meu caso, dar conta de oito turmas do ensino básico, que tem cerca de 40 alunos cada. Não há políticas públicas que ajudem o professor, especialmente na rede pública, não temos aparato de formação, tecnológico e menos ainda emocional — relata a professora.

Desde 2020, a escola em que Patrícia leciona está impossibilitada de receber os alunos. Para além da estrutura, o colégio não contava com espaços básicos para os alunos e professores, como biblioteca e refeitório. Todos esses detalhes, segundo a professora, tensiona o docente.

— Nós temos que pensar não apenas no conteúdo, mas no bem-estar de cada um dos alunos, dos colegas, dos problemas da escola. Aqui hoje compartilhamos o espaço com um segundo colégio e só onde trabalho temos cerca de 800 alunos. É muita preocupação para além do trabalho — desabafa.

A situação de Patrícia se assemelha a de milhões de outros professores brasileiros e preocupa instituições de ensino que enxergam na desvalorização um futuro “apagão” de docentes no país. Estudo divulgado nesta quinta-feira (29) pelo Instituto Semesp revelou que o Brasil precisará de 1,97 milhão de professores em 2040, mas as projeções indicam que o total deles cairá 20,7% em 18 anos, gerando um déficit de 235 mil profissionais.

O principal motivo para a redução contínua do número de professores é o desinteresse pela carreira, marcada por baixos salários e más condições de trabalho. Hoje, a proporção é de 20 estudantes com idades entre 3 e 17 anos na educação básica para cada docente em atividade.

O levantamento concluiu ainda que os professores são a categoria que mais sofrem com burnout — síndrome de esgotamento físico e mental, apontada como um dos principais motivos de afastamento da sala de aula. Em 2021, menos da metade desses profissionais (47%) avaliou sua saúde mental como boa ou excelente, mais de 34% continuaram reclamando do estresse prolongado e 72% disseram não ter acesso a apoio psicológico.

A professora Patrícia Rosas pensou em desistir da sala de aula durante a pandemia, após desenvolver transtorno de ansiedade devido à sobrecarga de tarefas. Segundo ela, o estado não deu assistência para os professores lidarem com uma realidade em que cada aluno apresentava diferentes necessidades, que precisavam ser atendidas à distância.

— Muitos colegas trocaram de profissão na pandemia. Tive que começar tratamento psicológico para não desistir da profissão e fiquei 30 dias afastadas por problemas de saúde. Não dá para romantizar a docência e a falta de estrutura nas escolas que torna nosso trabalho muito mais árduo. É preciso ter muita resiliência, porque não há estímulo — afirma a professora.

Estudantes desestimulados

A baixa no número de professores é também preocupa ao observar a redução no número de concluintes da graduação. O percentual de formados em cursos de licenciatura apresentou um crescimento de apenas 4,3%, devido à alta evasão em Ensino a Distância (EaD), que ganhou destaque sobretudo a partir da pandemia de Covid-19. A partir de 2020, a modalidade passou a representar 73,2% dos novos alunos, porém tem alto índice de abandono.

Somado a isso, o número de ingressantes em cursos presenciais de licenciatura diminuiu 37,6% nos últimos 10 anos. Em média, um a cada três alunos ingressantes não termina a faculdade.

A estudante Fabrícia Costa, de 26 anos, cursa pedagogia na Universidade de São Paulo (USP) e conta que a área não foi sua primeira opção. A decisão por lecionar veio pela oportunidade de trabalhar em uma escola e por admirar a docência. Em um cenário contrário, hoje Fabrícia estaria cursando ciências biológicas.

— É desestimulante ficar cursando algo que você sabe que não vai te recompensar no futuro. O governo e a própria sociedade não valorizam o professor. Muitos amigos meus desistiram do curso nos primeiros períodos, especialmente depois da pandemia quando vimos a verdadeira realidade da educação brasileira — relata a estudante.

Segundo a estudante, há um esforço dos professores da universidade para que os alunos permaneçam no curso e um grupo que ajuda estudantes sobrecarregados e preocupados com o futuro da profissão. No entanto, nem sempre é o suficiente.

— Na faculdade, além da cobrança pessoal, há uma cobrança de conteúdo que foi potencializada agora na pandemia. Os professores tentam fazer um acolhimento por meio de conversas sobre o que estamos achando do curso e do mercado de trabalho, mas é uma tarefa difícil porque todo o cenário é desanimador — afirma Fabrícia.

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