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Ministro adota no MEC estilo de menos gastos e mais guerra ideológica

15.mai.2019 - O ministro da Educação Abraham Weintraub fala na Câmara - Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
15.mai.2019 - O ministro da Educação Abraham Weintraub fala na Câmara
Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

Diego Toledo

Colaboração para o UOL, em São Paulo

29/06/2019 04h01

Em dezembro de 2018, Abraham Weintraub ainda não era ministro da Educação, mas já participava do governo de transição de Jair Bolsonaro. Durante uma palestra na recém-lançada Cúpula Conservadora, idealizada por Eduardo Bolsonaro, o economista revelou uma das maneiras que poderia ajudar o presidente eleito:

"Um pouco da contribuição que a gente pode dar é como vencer o marxismo cultural nas universidades", afirmou Weintraub, para satisfação de uma plateia simpática ao lema do encontro, que se apresentava como "conservador nos costumes, mas liberal na economia".

A receita para combater o marxismo cultural (o suposto controle ideológico de movimentos de esquerda sobre universidades e meios de comunicação), segundo Weintraub, seria aplicar a teoria de Olavo de Carvalho, apontado como ideólogo do bolsonarismo.

Desde abril, quando assumiu o comando do MEC, o ministro teve como tema recorrente de sua gestão o debate sobre a aplicação de recursos em universidades federais. Weintraub se tornou alvo de críticas logo após uma de suas primeiras entrevistas depois de assumir o cargo.


"Universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiverem fazendo balbúrdia, terão verbas reduzidas", disse o ministro, em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo.

A ameaça de cortes de verbas acabaria, em seguida, materializada no anúncio de um bloqueio de 30% do orçamento das universidades federais para despesas não obrigatórias. A decisão do ministério motivou as primeiras grandes manifestações de rua contra o governo, realizadas em 15 de maio.

Seguindo o exemplo do presidente Bolsonaro, Weintraub como ministro também adotou as redes sociais como ferramenta de comunicação com a população. Entre os tuítes e vídeos no Facebook, o ministrou virou meme ao usar chocolates para explicar as mudanças nos gastos com educação, ao fazer uma paródia de "Singing in the Rain" para desmentir "fake news" e ao cometer deslizes ortográficos.

Na última quinta (27), outro tuíte de Weintraub provocou reações negativas até de simpatizantes do governo Bolsonaro. Dois dias após a prisão de um militar brasileiro com 39 kg de cocaína em um avião da comitiva de uma viagem presidencial ao exterior, o ministro reagiu à notícia com um ataque irônico ao petismo: "No passado o avião presidencial já transportou drogas em maior quantidade. Alguém sabe o peso do Lula ou da Dilma?", escreveu o comandante do MEC no Twitter.

O misto de ironia, pragmatismo e agressividade na defesa de um controle mais rigoroso de gastos e do discurso contra o marxismo cultural ilustram o perfil de Weintraub: um economista que atuou por duas décadas como executivo no mercado financeiro e que, após se tornar professor universitário, passou a travar uma guerra ideológica contra grupos de esquerda.

De estagiário a diretor em instituição financeira

Em seus 47 anos de vida, o paulistano Abraham Bragança de Vasconcellos Weintraub dedicou a maior parte de sua trajetória profissional ao Grupo Votorantim. Recém-formado em economia pela USP, foi contratado pela empresa como estagiário em meados da década de 1990.

"Ele fez carreira lá dentro, chegando a ser economista-chefe do Banco Votorantim e, depois, ficou como diretor da corretora de valores", recorda Wilson Masao Kuzuhara, que presidiu a instituição entre 1993 e 2011. "É uma pessoa muito inteligente, de formação judia, estudioso, trabalhador, bastante dedicado."

O MEC de Abraham Weintraub

UOL Notícias


Kuzuhara diz ter Weintraub como um amigo e faz muitos elogios ao perfil "racional, objetivo e de força" do atual ministro como executivo, mas admite ter se surpreendido com a sua indicação para o cargo.

"Não vi nele, até onde trabalhou comigo, os pré-requisitos necessários para poder assumir um órgão tão grande de educação. Ele era competente para outras coisas", afirma o ex-presidente do Banco Votorantim. "Mas torço para dar certo. É uma pessoa ambiciosa, com uma conduta bem clara. Deve estar aprendendo a lidar com conflitos e oposições."

Depois de deixar o banco, Weintraub trabalhou por quase dois anos na Quest Investimentos, administradora de recursos fundada pelo economista Luiz Carlos Mendonça de Barros. Lá, as lembranças de funcionários que trabalharam com o ministro não são tão positivas. Ex-colegas de Weintraub na Quest dizem que o seu estilo "personalista" e "humor inconstante" dificultavam a convivência com ele.

Os embates como professor na Unifesp

A partir de 2014, teve início a atuação de Abraham Weintraub como professor dos cursos de Ciências Atuariais e de Ciências Contábeis na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), onde teve a companhia de sua mulher, Daniela, e do irmão Arthur (atualmente assessor da Presidência da República), também professores da universidade.

Começava, então, aquilo que o ministro descreveu na Cúpula Conservadora como "a experiência de aplicar a teoria de Olavo de Carvalho para lidar com o marxismo cultural". Na palestra de dezembro, Weintraub contou que, ao final de algumas aulas, oferecia aos alunos interessados uma apresentação em que apontava contradições e malefícios do comunismo.

"A gente tem que ser mais engraçado do que os comunistas", afirmou para a plateia de simpatizantes na cúpula. "A gente tem que ganhar a juventude, com humor e inteligência."

A partir de 2017, Weintraub passou a viver um clima de conflito e tensão com boa parte dos alunos e professores da Unifesp. O estopim para o embate foi um comunicado assinado pelos irmãos Abraham e Arthur em que a campanha de Jair Bolsonaro apresentava o seu diagnóstico sobre a situação política e econômica do Brasil.

Ministro da Educação, Weintraub, usa bombons para explicar cortes nas universidades - Reprodução - Reprodução
Ministro da Educação, Weintraub, usa bombons para explicar cortes nas universidades
Imagem: Reprodução

Poucos dias depois, o Diretório Acadêmico da Unifesp divulgou uma nota em que repudiava o apoio dos dois professores à candidatura de Bolsonaro. A crítica política dos alunos motivou uma reação contundente dos irmãos Weintraub.

Na resposta publicada por Arthur no Facebook, os irmãos ironizavam os autores da nota de repúdio e apontavam que o texto era assinado apenas por alunos dos cursos de Economia e Relações Internacionais, em que os Weintraub não lecionavam, e não tinha o apoio dos outros três cursos do campus de Osasco (SP) da Unifesp.

Na palestra de dezembro, ao comentar o embate ao lado do irmão, Arthur Weintraub também recorreu às lições de Olavo de Carvalho: "Quando um comunista ou socialista chegar pra você com um papo 'fronhonhoim', você pega e manda ele para aquele lugar, xinga, faz o que o professor Olavo fala. Quando você for dialogar com uma pessoa sem integridade intelectual, você não pode ter premissas racionais".

Caçada após "saída do armário"

Os irmãos Weintraub alegam que passaram a ser "caçados" na Unifesp depois que "saíram do armário" e manifestaram apoio a Bolsonaro. Dizem ter sido vítimas de perseguição e que tiveram apenas o apoio de parte dos alunos e quase nenhum professor.

O presidente da Associação dos Docentes da Unifesp, Daniel Feldmann, diz que foi a maneira "depreciativa e desmerecedora" como Weintraub passou a tratar as universidades que levaram professores de diferentes orientações a rechaçar o ministro.

Por meio de nota, a Unifesp afirmou que é "espaço para discussão ampla e irrestrita de diferentes pontos de vista" e que "não aceita quaisquer formas de violência ou cerceamento de opinião e livre pensamento". Os irmãos Weintraub se licenciaram da universidade em novembro, quando passaram a integrar a equipe de transição de governo.

Economista, Weintraub foi levado para a campanha de Bolsonaro por Onyx, que o conheceu no Congresso em um seminário sobre Previdência, em 2017 - Pedro Ladeira/Folhapress - Pedro Ladeira/Folhapress
Economista, Weintraub foi levado para a campanha de Bolsonaro por Onyx
Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress
Família, processos e a aproximação com Bolsonaro

A nota de repúdio dos alunos da Unifesp e a reação dos irmãos Weintraub deram início a uma série de trocas de acusações que foram parar na Justiça.

Estudantes que chegaram a acusar o ministro e seu irmão de nepotismo e a questionar o caráter dos dois por conta de uma tentativa de ambos de interditar o pai foram processados pelos Weintraub, que pedem indenização por danos morais.

Filhos do psiquiatra Mauro Salomão Weintraub, Arthur e Abraham estiveram envolvidos em uma disputa judicial pelo controle de parte dos bens da família, mas tanto os irmãos como o pai não comentam o caso.

A aproximação dos irmãos Weintraub com Bolsonaro aconteceu por intermédio do atual ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. Arthur conheceu o então deputado federal durante um debate sobre a reforma da Previdência na Câmara.

Os dois irmãos contribuíram com a equipe econômica da campanha de Bolsonaro, fizeram parte da transição de governo e passaram a ocupar cargos na administração federal a partir de janeiro -- antes de comandar o MEC, Abraham Weintraub era secretário executivo da Casa Civil.

Controle de gastos no MEC

Como ministro da educação, Weintraub tem insistido que a prioridade da pasta é fortalecer a educação básica. A sua gestão, no entanto, tem girado em torno de medidas para um maior controle de gastos. Com isso, especialistas em educação têm adotado um tom crítico ao avaliar o início de sua gestão.

"Essa visão de que você prioriza o ensino básico em relação ao superior é completamente equivocada", diz Roberto Catelli, doutor em educação pela USP e coordenador da Ação Educativa. "São campos distintos, ambos absolutamente importantes do ponto de vista de pensar uma política de desenvolvimento do país."

"A marca (de Weintraub como ministro) é a falta de debate sobre as questões centrais para educação - como conseguir mais recursos, valorizar a carreira docente, trabalhar pela alfabetização de crianças e adultos", acrescenta Catelli. "Em lugar disso, temos uma guerra ideológica, cortes em diversas áreas, esvaziamento do debate público e principalmente a universidade colocada como uma espécie de inimiga do governo."

A reportagem do UOL formalizou, por telefone e email (tanto à assessoria de comunicação do MEC como diretamente ao ministro), um pedido de entrevista com Weintraub para que ele comentasse os episódios e as críticas citadas. A solicitação foi reforçada desde o último dia 17, mas o ministro não quis se pronunciar.