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OPINIÃO

Escolas precisam de comunidade, não de mais vigilância

Escola Estadual Professora Helena Kolody, em Cambé (PR), que sofreu ataque a tiros - Silvano Brito
Escola Estadual Professora Helena Kolody, em Cambé (PR), que sofreu ataque a tiros Imagem: Silvano Brito

21/06/2023 16h41

Val Rocha*

O rapper Emicida fala publicamente de uma professora que o resgatou do "bueiro", impedindo que abandonasse a escola ainda criança e abrindo espaço para que se tornasse o artista que é hoje. O desinteresse teria surgido e crescido a partir do racismo que o aluno sofreu e, ao perceber a paixão do aluno por histórias em quadrinho, a educadora teria transformado todo o conteúdo didático em HQ. Essa é uma história de escuta e criação de conexões, movimento fundamental para alcançar o máximo potencial
humano, especialmente entre aqueles em formação.

Pais, cuidadores, especialistas e profissionais da educação se alinham na percepção de que o ambiente escolar vem sofrendo mudanças perigosas nos últimos anos, e os números confirmam essa alarmante realidade. Com o atentado que ocorreu nesta semana no Colégio Estadual Professora Helena Kolody, no Paraná, o Brasil soma 25 ataques em escolas desde 2002, que resultaram em 46 mortos e 93 feridos. Isolamento, solidão e ausência de pertencimento social são os pilares que conectam todos estes casos, ainda passíveis de muita análise e interpretação.

Um motivo apontado para o afastamento entre juventude e sociedade fica claro ao observarmos a dificuldade das escolas de explorar o diálogo mediado e fomentar o sentimento de pertencimento e confiança por parte dos jovens, mesmo em instituições que se propõem a abrir espaços de conversa. Com o sentimento de não estar sendo ouvido, a violência aparece como opção fácil na busca por canalizar as inquietações.

Mas, dada a complexidade do problema, as escolas não podem ser as únicas responsáveis pela árdua missão de integrar a comunidade. Se, por um lado, elas sofrem de deficiências na capacidade de abordar e acolher os jovens, por outro, o contexto social de famílias fragmentadas e ambientes pouco acolhedores têm de ser incorporados ao debate de forma urgente. O papel de agente formador do jovem, e sua integração na sociedade, é de responsabilidade compartilhada, com funções ainda pouco definidas para todos nós.

Com a falta de tempo dos cuidadores e familiares para se dedicar aos jovens, escutá-los e entender seus interesses, a quem cabe o apoio emocional tão fundamental àqueles que estão em processo de formação? Onde a juventude está buscando apoio, se nem as escolas e nem suas famílias conseguem manter esses elos? Essa reflexão nos aponta na direção de propostas mais resolutivas, mas também de maior complexidade, em oposição aos que defendem mais violência como solução para a violência.

Coibir tentativas de agressão com medidas de segurança é um caminho que já conhecemos para o estabelecimento de uma guerra, onde a solidão, o isolamento e a dor desses jovens será potencializada. Nesse sentido, é importante lembrar que vivemos em um momento de ascensão de um tipo de conservadorismo que valoriza o uso de armas de fogo e o 'resolva com as próprias mãos', em que a estética da violência é um componente central. Assim, é na criação de vínculos que podemos buscar soluções possíveis para os desafios da juventude.

Mesmo que a cultura de paz seja uma missão muito complexa para que a escola a realize sozinha, lembremos que elas são espaços que ainda mantêm seu potencial para construir comunidade com as famílias, com os bairros e suas cidades. Que elas retomem esse lugar central de mediadoras da sociedade, fortalecendo relações que apoiem os jovens neste momento tão desafiador da vida.

A proximidade, o sentimento de comunidade e a integração bairro-sociedade incentivam um ciclo virtuoso de diálogo e compreensão, fugindo do isolamento e da solidão, terreno fértil para que se fortaleça o pior. Não nos esqueçamos de que quando estamos distantes é fácil agredir, gritar ou atirar. Mas, se estamos abraçados, é impossível jogar nem mesmo uma pedra sem igualmente sofrer com a agressão.

* Arquiteta e urbanista, é graduada pela Universidade Federal da Bahia, especialista em uso de terras urbanas e regularização fundiária pelo IHS (Holanda) e pós‐graduada em Jogos Cooperativos pela Unimonte (Santos). É gestora de relacionamento do Instituto Elos.