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Informações da coluna
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Antônio Gois
Jornalista de educação desde 1996. Autor dos livros 'O Ponto a Que Chegamos'; 'Quatro Décadas de Gestão Educacional no Brasil' e 'Líderes na Escola'.
Bolsistas em escolas de elite
Mesmo com todos os problemas, é fundamental — para o bem de todos — que esse movimento de inclusão seja ao mesmo tempo intensificado e aperfeiçoado
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RESUMO
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GERADO EM: 16/09/2024 - 03:30
Desafios da inclusão em escolas privadas em SP
Um aluno bolsista de escola privada em São Paulo comete suicídio, destacando desafios de integração e discriminação. Pesquisas mostram a necessidade de mais diversidade nas instituições de elite. A importância da inclusão vai além do aspecto humano, influenciando também habilidades essenciais para o futuro do trabalho. Políticas de bolsas enfrentam problemas de fiscalização e justificativa em meio à restrição fiscal. A meritocracia em escolas elitizadas é questionada, defendendo acolhimento em vez de punição para bolsistas.
O suicídio de um aluno bolsista numa tradicional escola privada de São Paulo motivou reportagens recentes sobre situações enfrentadas por esses estudantes em colégios de elite. Foram destacados relatos de bullying, preconceito ou segregação, além da própria dificuldade de integração com crianças e jovens de uma realidade socioeconômica muito distinta. Todos os casos merecem atenção e reflexão sobre as políticas de acolhimento praticadas por esses estabelecimentos. Mas é fundamental reforçar que, mesmo com todos os problemas, é fundamental – para o bem de todos - que esse movimento de inclusão seja ao mesmo tempo intensificado e aperfeiçoado.
Um levantamento realizado há três anos pelo sociólogo Luiz Augusto Campos, pesquisador do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Iesp/Uerj), mostra o quanto ainda precisamos avançar. Ao analisar o perfil de alunos de colégios com melhores médias no Enem, Campos identificou que não passava de 10% a proporção de autodeclarados pretos ou pardos. Ao fazer um recorte por Estado, a pesquisa mostrou à época, por exemplo, que em São Paulo esse percentual era de apenas 4%. Mesmo considerando que para uma parcela dos estudantes não há declaração de raça ou cor (em São Paulo, por exemplo, faltavam dados de 18% dos alunos da amostra), a discrepância em relação à demografia de um país de maioria preta e parda é gigantesca.
Não faltam justificativas humanistas e civilizatórias para defender a tese da importância de ampliar a diversidade do alunado, especialmente em instituições extremamente elitizadas. Mas, em alguns casos, talvez o argumento mais capaz de convencer quem ainda resiste a isso seja econômico. No relatório The Future of Job Reports 2023, realizado pelo Fórum Econômico Mundial, grandes empregadores globais foram questionados sobre as competências mais requisitadas dos trabalhadores. Pensamento analítico e criativo foram as duas mais citadas. Outras como resiliência, flexibilidade, curiosidade, empatia, liderança e influência social também estão entre as dez. Essas são habilidades que não são transmitidas por conhecimento. Precisam ser praticadas num ambiente com diversidade, como é a vida em sociedade.
O ideal é que as escolas de elite sejam conscientizadas dessa importância, sem demandar apoio estatal. No entanto, até existe uma política pública, a Cebas (Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social na Área de Educação) que, em tese, serviria de incentivo para oferta de bolsas, em troca de benefícios fiscais. Relatórios de auditoria e avaliação, no entanto, mostram várias irregularidades e falhas de fiscalização. E, mesmo que funcionasse perfeitamente, ainda caberia o questionamento se um programa como esse seria justificável num ambiente de restrição fiscal e subfinanciamento da educação pública.
Há escolas que promovem uma falsa integração, ao aceitar estudantes de menor renda em turmas apartadas. Há também instituições e programas que avançaram ao mostrar a importância da convivência entre todos, mas, em alguns casos, ainda trabalham com uma visão arcaica de meritocracia, estabelecendo para bolsistas exigências que não são aplicadas aos pagantes, como não poder tirar notas baixas ou repetir de ano. Esses estudantes já provaram seu mérito ao passar em processos seletivos rigorosos, mesmo vivenciando uma situação econômica muito mais desfavorável em relação aos colegas. Acolhimento e apoio, nesse caso, são muito mais eficazes do que a ameaça de punição.